17/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 17/07/2021 às 08h00min

​Acompanhamento clínico do cardiologista em cirurgias maiores: é importante?! Por que solicitar?!

JOÃO LUCAS O'CONNELL
PEXELS
Esta semana, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, teve uma complicação intestinal e precisou ser internado para avaliar a possibilidade de uma nova cirurgia para liberação de alças intestinais que estariam presas (ou dobradas), levando à uma semi-obstrução à passagem de fezes entre o intestino e o ânus.
 
Além de todo o cuidado de segurança com o atendimento e o transporte do presidente, um outro fato chamou muito a atenção: a enorme quantidade de médicos que davam suporte ao paciente, ajudando em sua monitorização, na discussão de seu caso e na tomada de decisão sobre o eu deveria ser feito (em conjunto com o cirurgião principal).
 
Em geral, grandes Hospitais, que primam pela qualidade assistencial acabam oferecendo um suporte ao paciente e familiares em termos de um time de especialistas que vão garantir uma abordagem multidisciplinar e oferecer uma maior amplitude na assistência ao paciente. Isto confere uma eficiência e uma segurança bem maior do que quando só um médico é responsável pela condução.
 
A maioria das complicações que acontecem no período perioperatório (antes, durante e após uma cirurgia qualquer) está relacionado à ocorrência de sangramentos, infecção e disfunção renal. Entretanto, as mais temidas ainda são as complicações cardiovasculares (hipotensão, bradicardia, arritmias, infarto, acidente vascular cerebral (AVC).
 
Assim, a avaliação e o acompanhamento cardiológico do paciente antes, durante e após a realização do procedimento ajuda a diminuir a chance de ocorrência destes eventos desagradáveis. Mas, em quais situações esta avaliação torna-se ainda mais necessária e efetiva?
 
Em geral, cirurgias pequenas em pacientes hígidos e que estejam clinicamente compensados (boa pressão arterial e glicemia, por exemplo) não carecem de avaliação pré-operatória detalhada. Assim, pacientes sadios submetidos à cirurgias de retirada de pequenos tumores cutâneos, retirada de dentes, tratamento de varizes e outros procedimentos pequenos não necessitam avaliação clínica especializada antes, durante ou imediatamente após ato cirúrgico.
 
Por outro lado, sempre recomendamos uma avaliação clínica e cardiológica mais detalhada antes da realização de qualquer grande cirurgia – uma cirurgia em Aorta ou em grandes artérias, por exemplo, ou em uma cirurgia em que haja maior probabilidade de ocorrência de grandes sangramentos ou de instabilidade pressórica. Nestes casos, a avaliação do cardiologista faz-se extremamente necessária, mesmo quando realizada em pacientes hígidos.
 
Entretanto, a maioria das cirurgias realizadas em centros cirúrgicos são consideradas de complexidade intermediária. Assim, cirurgias intra-torácicas, intra-abdominais, intra-cranianas, ortopédicas, prostáticas constituem exemplos de cirurgias de risco intermediário para a ocorrência de eventos cardiovasculares no período peri-operatório. Também consideramos importante a realização de avaliação e acompanhamento cardiológico dos pacientes que serão submetidos a estes procedimentos de complexidade intermediária.
 
Alguns fatores, porém, indicam uma preocupação maior ainda e, consequentemente, tornam mandatória a realização de avaliação cardiológica cuidadosa pelo menos antes da realização destes procedimentos. Assim, a presença de diabetes, hipertensão arterial sistêmica descontrolada, insuficiência renal, insuficiência hepática, distúrbios hematológicos, idade maior que 65 anos, antecedentes de infarto agudo do miocárdio, angina, arritmias, insuficiência cardíaca, constituem alguns dos fatores que tornam a avaliação cardiológica fundamental antes da realização destas cirurgias.
 
Além de orientar o cirurgião e o anestesista quanto ao risco do paciente apresentar algum evento cardiovascular grave no período peri-operatório, o cardiologista poderá indicar a necessidade de realização de exames e procedimentos cardiológicos que visarão a detecção, e até a correção, de diversas situações potencialmente fatais. Assim, pode-se diagnosticar e tratar a presença de isquemia miocárdica, de arritmias cardíacas malignas, de insuficiência cardíaca e de valvulopatias.
 
Quando o tratamento da patologia cardíaca puder ser feita com o tratamento clínico, estas medicações deverão, na maioria das vezes, serem iniciadas antes do ato operatório, protegendo o coração de eventuais intercorrências importantes no período peri-operatório. Algumas outras medicações deverão ser suspensas, ao menos temporariamente, nos dias imediatamente antes e após a cirurgia.
 
O acompanhamento do paciente durante o procedimento é sempre realizado pelo próprio cirurgião, pelo auxiliar e pelo anestesista. Mas, se julgarem necessário, paciente, família ou equipe médica podem sugerir a necessidade do acompanhamento do clínico ou do cardiologista do paciente também durante e após o ato operatório.
 
Mais familiarizados com as particulares individuais do paciente, estes podem ser fundamentais para auxiliar a equipe na detecção precoce e rápida intervenção em distúrbios hemodinâmicos (pressão arterial, frequência cardíaca), em distúrbios do ritmo cardíaco e, em especial, durante suspeitas de isquemia miocárdica induzidas pelo ato operatório.
 
Esta agilidade na detecção do problema e orientação quanto à correta intervenção pode, inclusive, fazer a diferença na sobrevivência do indivíduo após a intercorrência enfrentada durante a cirurgia. Além do risco de intercorrências cardiovasculares, o cardiologista também auxiliará a equipe no planejamento de estratégias que visem diminuir os riscos de: sangramento (corrigindo distúrbios hematológicos), infecção, insuficiência renal, descontrole pressórico ou glicêmico, tromboses e embolias que podem acontecer no período perioperatório.



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