10/07/2021 às 09h00min - Atualizada em 10/07/2021 às 09h00min

O que há de novo sobre Prevenção Cardiovascular?

JOÃO LUCAS O'CONNELL
Mesmo com todo o pavor e mortes trazidos pela pandemia da COVID, as doenças cardiovasculares (Infarto, AVC, Hipertensão, Arritmias e outras) ainda são as doenças que mais matam hoje, no Brasil e no mundo. Só no ano passado, foram mais que 300.000 óbitos cardiovasculares no Brasil! Número maior, inclusive, que os causados pela COVID em 2020. Apesar do aumento progressivo do número de óbitos por câncer, doenças infecciosas, acidentes, homicídios, mais de um terço dos óbitos no país ainda estão relacionados às doenças do coração e dos vasos sanguíneos.

Há algumas décadas, cientistas têm estudado o impacto de várias substâncias e medicações em promover benefícios ao coração e aos vasos sanguíneos. Apesar de muita especulação que surgiu ao longo das últimas décadas, pouca coisa foi realmente comprovada como benéfica em relação à proteção cardiovascular. Entende-se por prevenção, medidas que podem ser tomadas pelo indivíduo, ou por um grupo populacional, para diminuir o risco de eventos cardiovasculares graves (infarto, AVC) ou de morte provocada por um destes eventos.

Óleo de coco? Banha de porco? Água de berinjela? Biotônico? Água com limão? Glutamina e gratidão? Bicarbonato? Chá verde? Suco verde? Uma taça de vinho tinto? Ômega 3? Magnésio? Vitamina D? AAS infantil todo dia? Além de todas pesquisas já realizadas, ainda existem inúmeras sugestões dadas por médicos, leigos e propagadas extensivamente em mídias sociais que prometem melhorar a qualidade de vida e prolongar a quantidade de vida das pessoas. Entretanto, ainda desconhecemos a real eficácia da maioria destas (e de outras medidas) amplamente propagadas na mídia.

Infelizmente, faltam estudos científicos robustos que possam confirmar estas sugestões milagrosas de gurus da saúde e outros “especialistas”. Assim como na COVID, também para a prevenção de doenças cardiovasculares, os médicos não deveriam defender recomendações baseadas em achismos e sem comprovação científica. As sugestões devem ser baseadas em estudos científicos que envolvam o acompanhamento fidedigno de, pelo menos, algumas centenas de pacientes.

Mas então, se faltam estudos científicos que comprovem o benefício de boa parte destas substâncias, o que podemos afirmar que realmente seja benéfico e útil e que, se adotados, podem melhorar a qualidade de vida, diminuir a necessidade de internações e sequelas provocadas por estas doenças e para tentar aumentar a quantidade de anos vividos (diminuindo o risco de morte por doenças do coração)? Existem sim várias medidas que podem ser adotadas e realmente trazer benefícios! Também existem várias medicações que diminuem a ocorrência de problemas e de mortes, especialmente nos pacientes que possuem alto risco cardiovascular! Em termos gerais, quanto maior o risco do paciente, maior o benefício das medidas que serão discutidas abaixo.

Já existem várias evidências científicas, bem estabelecidas, que demonstram que a adoção de um estilo de vida saudável possa diminuir a incidência e, inclusive, a mortalidade associada às doenças cardiovasculares. De maneira geral, uma dieta equilibrada (idealmente a mediterrânea); consumo reduzido de sal, açúcar, embutidos, frituras e gorduras; evitar o uso de substâncias nocivas (cigarro, álcool, drogas ilícitas); perda de peso, controle do estresse emocional, promoção do lazer e bem estar psíquico; exercício físico regular; sono apropriado; controle da poluição ambiental são todos fatores diretamente relacionados não só a um importante benefício cardiovascular, como também, a uma diminuição na incidência da maioria dos cânceres.

Além destas mudanças no estilo de vida, alguns medicamentos também já se mostraram eficazes para este fim (principalmente os utilizados para o controle da glicose, da pressão arterial e do colesterol sanguíneo). Assim, por mais que saibamos que o uso de medicamentos deve ser sempre evitado pois invariavelmente trazem consigo efeitos colaterais que podem piorar a qualidade de vida do indivíduo, existem algumas medicações que, quando prescritas, realmente têm o potencial de diminuir a incidência de problemas cardíacos e vasculares e podem sim, levar a aumento da sobrevida do indivíduo.

Ao longo dos próximos artigos desta coluna, procuraremos discutir os benefícios de cada uma destas medidas não farmacológicas (mudanças no estilo de vida) e farmacológicas (com uso de medicamentos) que são comprovadamente associadas à melhora na qualidade e na quantidade de vida das pessoas. Tanto quando utilizadas na prevenção primária (para evitar o surgimento das doenças), quanto na prevenção secundária (para evitar o ressurgimento do evento cardiovascular naquelas que já foram vitimadas por infarto ou AVC, por exemplo...).

Enquanto não discutimos os detalhes de cada uma destas medidas, é importante reafirmar que o uso de uma dieta saudável, associado a atividade física regular, interrupção do tabagismo, controle do estresse emocional, da pressão arterial, do colesterol e glicose sanguíneos são, por enquanto, as medidas que devem ser fortemente orientadas. O restante, por enquanto, continua na base da especulação não científica.
 


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