08/07/2021 às 09h00min - Atualizada em 08/07/2021 às 09h00min

Mundo novo

IVONE ASSIS
 
Para mim, a infância é a fase mais encantadora da vida. Nela há um oceano de descobertas, em um infinito de por quês, que cabem na boca de uma criança. E como escreveu Manoel de Barros (1990, p. 341), “Temos que enlouquecer o nosso verbo”, pois quando lemos, ou escrevemos, ou recitamos, ou contamos histórias, o verbo segue pegando água na peneira, descortinando possibilidades e entortando ruas.

Segundo Yunes, ler é descortinar. Haja vista que é por meio da leitura que se alcança a compreensão, de modo a interpretar o mundo. “Desde o início, a leitura deve contar com o leitor, sua contribuição ao texto, sua observação ao contexto, sua percepção do entorno. O prazer de ler é também uma descoberta” (YUNES, 1995, p. 187).

Assim sendo, podemos considerar que todo leitor é também um coautor do texto que lê, pois, a cada leitura nasce uma nova interpretação, logo também uma nova história. Eu queria ter o dom de aprender novas línguas, para traduzir as culturas para o meu leitor, mas à criança é dado este saber, ainda que ela não fale nem mesmo a sua língua mãe, porque é dela [da criança] a magia do encantamento.

Manoel de Barros, com seu neologismo e versos, ajuda-nos a ampliar este saber, temendo que a criança pense como o homem, ele lhe impregna a capacidade “insetal” de pensar, capacidade esta que somente uma imaginação límpida da infância conseguiria alcançar, uma vez que, para isso, faz-se necessário um olhar sem entraves, vindo de um coração sem rancores e sem usuras. Então, o poeta equipara a criança às borboletas, cujo poder de metamorfose é sem igual.

“Borboletas me convidaram a elas. / O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu. / Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas. / Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, / um mundo livre aos poemas. / Daquele ponto de vista: / Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens. / Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens. / Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens. / Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas. / Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta. / Ali até o meu fascínio era azul”. (Manoel de Barros, 2000).

Nesse poema, o escritor se faz menino, e o menino se faz borboleta, para, aí, traduzir o mundo para o homem, por meio das sensações. Ainda na poética de Manoel de Barros, vou citar alguns versos d’“O menino que carregava água na peneira”, do livro “Exercícios de ser criança” (1999).

“Tenho um livro sobre águas e meninos. / Gostei mais de um menino / que carregava água na peneira. // A mãe disse que carregar água na peneira / era o mesmo que roubar um vento e / sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. // [...] Com o tempo descobriu que / escrever seria o mesmo / que carregar água na peneira. // [...] O menino aprendeu a usar as palavras. / Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. [...]”.

O poeta revela que é no despropósito das coisas, na falta de sentido... ou seja, nos absurdos, que habitam os maiores propósitos e sentidos. Nesse poema, o menino aprende a domar as palavras e, possivelmente, cavalgará os peixes sobre as cachoeiras. Como anunciou esse poeta: “Acho que não pertenço à Geração de 45. Não sofri aquelas reações de retesar os versos frouxos ou endireitar sintaxes tortas. [...] A nós, poetas destes tempos, cabe falar [...] do lixo sobrado e dos rios podres que correm por dentro de nós e das casas. Aos poetas do futuro caberá a reconstrução – se houver reconstrução. Porém a nós, [...] resta falar dos fragmentos, do homem fragmentado que, perdendo suas crenças, perdeu a unidade interior (BARROS, 1990, p. 308-309).

É nessa fragmentação arrancada de sob os escombros diários que a infância abandona o casulo para se tornar borboleta e, quem sabe, por meios de seus despropósitos, reconstruir a significação, fazendo surgir um mundo novo.



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