04/06/2021 às 21h45min - Atualizada em 04/06/2021 às 21h45min

Pare

ALEXANDRE HENRY
Se você não respeita o sinal de “Pare” ao dirigir seu veículo, causando um acidente, as consequências podem ser graves. Caso você machuque alguém ou mate alguém, ainda que você não tenha tido a intenção de fazer isso, poderá ser condenado criminalmente. Além disso, poderá ser condenado a reparar os danos sofridos no veículo da outra pessoa e, conforme a gravidade do acidente, poderá ter que pagar também indenização por danos morais.

Agora, imagine que você está em uma moto transitando calmamente pela cidade, poucos dias depois de ser vacinado contra a COVID. Foram quinze meses de pandemia extremamente complicados, porque você é relativamente obeso e tem pressão alta, o que te obrigou a fazer uma quarentena muito rígida. Agora, você finalmente percebe que em breve poderá voltar a fazer tudo aquilo que você mais ama. Mas, de repente, uma pessoa simplesmente cruza a esquina sem respeitar o “Pare” e acerta você com violência brutal. Sua moto fica destruída e você fica muito machucado. A polícia chega e te pergunta: “Olha, esse sujeito te causou lesões corporais sérias e ele pode ser condenado criminalmente. Mas, para que ele seja processado, é preciso que você manifeste o desejo de que isso aconteça”. O que você falaria para o policial?

Isso aconteceu com o meu tio, cujo falecimento relatei aqui na semana passada. Mesmo ciente de todos os seus direitos e de que o causador do acidente tinha cometido um crime, ele falou para o policial que não queria fazer a representação criminal. Em resumo, ele perdoou o agressor. Sim, ele não sabia que as lesões sofridas ceifariam a sua vida dois dias depois, mas creio que não teria agido de forma diversa se soubesse disso.

Perdoar é um gesto de grandeza cada vez mais raro e um dos culpados por isso é o distanciamento provocado pelas relações cada vez mais virtuais, cada vez mais mediadas por uma tela de computador ou celular. Por que o meu tio perdoou o agressor? Provavelmente porque viu, cara a cara, o desespero daquele senhor ao perceber que tinha se distraído e causado um acidente gravíssimo. Eu não estava lá, mas os relatos que me chegaram foram no sentido de que o dono do veículo que ultrapassou o “Pare” ficou totalmente transtornado, verdadeiramente arrependido e não se furtou de assumir sua falha, além de não ter abandonado o local do acidente, claro. Isso muda muito. Quando alguém agride outra pessoa pela internet, especialmente em redes sociais ou por mensagens, não consegue ver o sofrimento de quem foi agredido e, com isso, não tem despertado em si nenhum sentimento de compaixão ou arrependimento. E, ainda que tenha se arrependido, dificilmente a outra pessoa verá ou acreditará em tal arrependimento, pois a distância proporcionada pela internet torna as relações extremamente mais frias e desumanizadas.

Esse é um mal dos novos tempos. Para além de casos como essa triste fatalidade com o meu tio, o que temos visto é um rompimento entre pessoas que nem chegaram a fazer amizade, envolvidas geralmente em discussões sobre política ou comportamento que geram brigas gigantescas. Bate-bocas em grupos de WhatsApp, Facebook ou Twitter são cada vez mais comuns, gerando mágoas e ainda mais distanciamento do que aquele já proporcionado pela mediação das telas. Perdemos o olho no olho e isso é trágico. Pense em antigamente. Você ia para o bar com um amigo. Você era eleitor do Zaire e ele do Virgílio Galassi, rivais na política municipal uberlandense. Era época de eleição e vocês começavam uma discussão ferrenha sobre o assunto. Dificilmente, aquilo levava a algo mais sério, pois a proximidade física e a leitura dos gestos de comunicação não verbal acabavam por estabelecer limites às ofensas. Chegava uma hora em que um simplesmente falava para o outro: “Ah, vá se catar! Paga mais uma cerveja aí e vamos falar da nossa última pescaria porque essa droga de política tá muito chata!”. Simples assim. Passavam para outro assunto, riam juntos e a vida continuava.

Hoje, isso é muito mais raro. As pessoas agridem pela internet e não se arrependem, pois não veem o sofrimento do outro. As pessoas são agredidas pela internet e não perdoam, pois não veem o arrependimento do agressor. Apenas quando saem do mundo virtual, algo cada vez mais raro, é que conseguem agir de forma um pouco mais humana. O que aconteceu no acidente do meu tio era bem mais comum antigamente na maioria das desavenças entre duas pessoas. A internet, porém, fez do arrependimento e do perdão comportamentos cada vez mais raros em um mundo cada vez mais desumanizado.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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