28/05/2021 às 18h01min - Atualizada em 28/05/2021 às 18h01min

O tio dos sobrinhos

ALEXANDRE HENRY
Cada pessoa tem o livro de sua própria vida com alguns capítulos bem complicados. No meu livro, o ano de 1982 registra meses morando em um quartinho na casa dos meus avós, com meus irmãos e minha mãe já doente (ela iria falecer em 1983), enquanto meu pai trabalhava a mais de dois mil quilômetros de distância. Mas, se há lembranças boas que guardo daquele ano, elas são do meu tio mais novo, o Orlando. Eu tinha seis anos e ele tinha dezenove. Estava servindo o quartel em Brasília e, quando vinha para a casa dos pais em Uberlândia, fazia festa e dava atenção para mim. Nunca me esqueço de dois pôsteres maravilhosos de motos que ele tinha e que colocou em uma competição conosco: quem conseguisse fazer um carrinho de brinquedo ir mais longe na ladeira ganharia um pôster.

Não fiquei muito tempo na casa da minha avó. Perdi a mãe, mudei de casa algumas vezes, mas nunca deixei de ter contato próximo com meu tio. Na minha adolescência, ele trabalhou com meus pais e costumava me levar para pescar com ele. Não era privilégio meu: a atenção que ele sempre deu a praticamente todos os sobrinhos era algo fora do normal. Tios gostam de sobrinhos. Ele ia muito além. Conversava, fazia passeios com os filhos dos irmãos, aconselhava, visitava, enfim, estava sempre presente. Foram tantas e tantas aventuras com os sobrinhos... Há poucos anos, subiu em uma bicicleta e pedalou com um dos meus irmãos de Uberlândia até Caraguatatuba, em cinco dias de estrada. Pescou com vários sobrinhos, viajou para o Pantanal, para fazendas, para a praia e um monte de outros programas conosco, isso enquanto éramos crianças, adolescentes e também adultos.

Ele me deu tanta atenção que, quando me mudei para a Amazônia, em 2009, decidi que precisava retribuir de alguma forma. Não sei se ele já tinha viajado de avião, só sei que comprei uma passagem para ele e, em outubro de 2010, ele foi para Porto Velho para podermos fazer uma pescaria das boas, no meio da Amazônia. Depois disso, eu e ele saímos de carro pela Estrada Interoceânica: atravessamos a divisa de Rondônia com o Acre, margeamos a Bolívia, visitamos uma cidade por lá, entramos no Peru, subimos a Cordilheira dos Andes e fomos até Cuzco. Lá, fizemos um monte de passeios legais e, depois, fomos para o Lago Titicaca, adentrando na Bolívia até La Paz. Voltamos ao Peru, descemos a Cordilheira e chegamos até Iquique, no norte do Chile. Foi uma viagem inesquecível em que contamos muitas histórias e compusemos um acervo de memórias formidável.

Em meados da década passada, ele pegou gosto de vez pelo pedal e, mesmo obeso e na casa dos cinquenta anos de idade, montou um grupo com os sobrinhos chamado “PedAlves”, em homenagem à família. Comecei a pedalar muito por causa dele e do grupo. Em 2016, pedalamos 180 quilômetros em dois dias até a Fazenda da Paz, em Abadia dos Dourados. Ele e, claro, um monte de sobrinhos. Depois disso, pedalamos muitas e muitas vezes, estando o grupo ativo até hoje.

Meu tio Orlando começou a andar de moto logo cedo e a usava para o trabalho diariamente. Quarenta anos em uma moto, milhares de quilômetros rodados e, nos meus cálculos, ao menos dois milhões de esquinas cruzadas. No dia 21 de maio, porém, ele atravessou a última esquina de sua vida quando um sujeito dirigindo uma camionete não respeitou o sinal de “Pare” e o atingiu com toda força no Bairro Brasil, em Uberlândia. De início, parecia mais um susto, com alguns ossos fraturados e a perspectiva de ficar alguns meses afastado da bicicleta. Mas, ainda na sexta-feira, seu quadro se agravou e logo percebemos que não era algo simples. Dois dias depois, no domingo, seu corpo não aguentou mais e ele partiu aos 58 anos de idade.

A gente brinca que ele era o “tio dos sobrinhos”, pois era a referência maior para todos nós. A comoção entre todos os sobrinhos foi algo extraordinário, como se cada um de nós tivéssemos perdido nossos próprios pais. Eu chorei e me senti mal de um jeito que poucas vezes na vida senti. A gente costuma sentir a perda de qualquer parente, mas é diferente quando a pessoa é diferenciada para você. Às vezes, sinto raiva do desalmado que fez isso com ele, um típico representante desse trânsito brasileiro assassino. Mas, logo me lembro de que o que mais vale é o que ele foi para todos nós, tudo o que fez pelos sobrinhos e o quanto foi amado. Sei que este texto é muito pouco para homenageá-lo. Mas, ele sabe o quanto o amamos. Vá em paz, meu tio. Você fará muita falta, pode ter certeza.


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