07/05/2021 às 17h45min - Atualizada em 07/05/2021 às 17h45min

As vacinas contra a COVID

JOÃO LUCAS O'CONNELL
A vacinação é uma forma simples, segura e eficaz de desenvolver proteção contra doenças nocivas, antes que entremos em contato com os patógenos que as transmitem. As vacinas estimulam o nosso sistema imunológico, ensinando as células do nosso sistema de defesa a reconhecer determinados vírus ou bactérias como nocivos e a como neutralizá-los. Este treinamento do sistema imunológico pode ser dado ensinando células de defesa “assassinas” a agredir rapidamente o invasor ou através do estímulo à produção de anticorpos (proteínas que ajudarão a neutralizar a ação dos invasores). Assim, basicamente, as vacinas estimulam o seu organismo a se tornar mais resistente contra microorganismos invasores, tornando o seu sistema imunológico mais forte. Mas, fazer isso sem o risco de induzir ao surgimento da doença é que sempre é um grande desafio. Portanto, para que uma vacina seja eficaz e também segura, ela tem que ser capaz de estimular o organismo a produzir uma resposta de defesa sem, no entanto, causar a doença.

Desde que as vacinas contra a COVID chegaram no Brasil, em Janeiro último, muitas dúvidas relacionadas às vacinas começaram a surgir. São, de fato, seguras? São realmente eficazes? Estariam indicadas para todos os pacientes? Quais os efeitos colaterais? Quais as contraindicações? Por ora, três imunizantes foram aprovados e dois já foram distribuídos no país: a Coronavac e os imunizantes da AstraZeneca/Oxford e da Pfizer. No artigo desta coluna, vamos discutir as principais características, a segurança e a eficácia de cada uma delas.

A Coronavac é uma vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e que está sendo produzida no Brasil em parceria com o Instituto Butantan (em São Paulo). Sua tecnologia é a da injeção intra-muscular do coronavírus inativado, ou seja, incapaz de invadir as nossas células e se multiplicar em nosso organismo. O racional desta vacina é de que estes “restos mortais” do vírus, quando em contato com o nosso organismo, vão apresentar proteínas estranhas ao nosso sistema de defesa, que desenvolverá a capacidade imunológica para combater o vírus futuramente. A taxa geral de eficácia da Coronavac é de 50%. Isto significa que a vacina reduz pela metade o risco do vacinado de apresentar qualquer sintoma de gripe por COVID ao longo, pelo menos, dos próximos meses. Mais do que isso, quem toma a vacina tem uma chance 80% menor de desenvolver um quadro grave de COVID, a ponto de necessitar de oxigênio ou de internação hospitalar. Seu índice de efeitos colaterais é mínimo, sendo reações graves praticamente inexistentes. Não há descrições de efeitos colaterais graves ou óbitos relacionados a esta vacina no Brasil.

A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca será produzida no Brasil em parceria com a Fiocruz (no Rio de Janeiro). Trata-se de uma vacina que traz o conceito de vetor viral não replicante. Por isso, utiliza um vírus vivo (como um adenovírus que causa um resfriado comum), mas que é atenuado (enfraquecido) artificialmente em laboratório e perde a sua capacidade de invadir as nossas células e de se multiplicar e nos prejudicar.  Este adenovírus também é modificado, através de engenharia genética, para carregar as instruções para a produção de uma proteína típica do coronavírus, conhecida como “proteína S” ou “espícula”. Ao entrar nas nossas células, o adenovírus faz com que elas passem a produzir essa proteína e a exibi-la em sua superfície. A exibição desta proteína “espícula” faz com que o nosso sistema imune reconheça a proteína como estranha e passe a produzir defesa contra patógenos que contenham esta superfície em sua superfície, caso do coronavírus. Sua eficácia para qualquer sintoma de gripe é de 70% e, para formas graves da doença, é maior que 80%. Por tratar-se da inoculação de adenovírus atenuado, a vacina pode induzir a reações inflamatórias parecidas como a de uma gripe em fase inicial. Efeitos colaterais graves como pneumonias ou trombose são muito raros. Não há descrições de óbitos relacionados a esta vacina no Brasil.

Já a vacina da Pfizer utiliza a tecnologia chamada de RNA-mensageiro, diferente das outras duas que utilizam o cultivo de vírus em laboratório. Os imunizantes são criados a partir da instrução genética, em que o RNA injetado estimulará as células do nosso organismo a replicar sequências de RNA que mimetizam a proteína “espícula” do coronavírus, levando à produção de uma reação de defesa robusta das células do nosso sistema imunológico contra o vírus. É, dentre as três vacinas discutidas aqui, a considerada mais eficaz, levando a mais de 90% de redução de casos de gripe entre os vacinados. Ela tem poucos efeitos colaterais e não há registros de reações adversas graves ou óbitos secundários a esta vacina. A maior dificuldade do uso desta vacina se relaciona às dificuldades de armazenamento da mesma (sob baixíssimas temperaturas), o que dificulta sua distribuição e aplicação longe de grandes centros urbanos.

Apesar de ainda existirem várias dúvidas e questionamentos sobre as vacinas, sabemos que a vacinação em massa da população é a maneira mais rápida, segura e eficaz de tentarmos botar um fim a esta pandemia. Há uma enorme esperança, dentro da comunidade científica, que, a partir da vacinação de mais da metade da população (que deve ocorrer nos próximos meses), possamos atingir a chamada “imunidade populacional”. Esta “imunidade de rebanho” poderia levar a quedas drásticas do número de novos casos e de óbitos no Brasil. Até lá, todo cuidado é pouco... E a manutenção de todas as medidas de distanciamento social e de higiene manual e respiratória são fundamentais.


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