06/05/2021 às 09h35min - Atualizada em 06/05/2021 às 09h35min

Até logo

IVONE ASSIS
No livro de Eclesiastes, 3. 1-8, está escrito: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz”. Em minha existência, esta semana, possivelmente, foi a semana que mais certificou esta palavra em meu saber e pequenez. Nasci e cresci sob o ensinamento de meu avô, um homem que, de mãos dadas com a sensatez, me ensinou: “As plantas nascem, crescem, florescem e vão embora, para dar oportunidade a outras plantas que querem repetir o ciclo da vida. Por que haveríamos de querer ficar aqui para sempre, se somos como plantas? Para tudo há um tempo. O que precisamos é saber viver decentemente o nosso tempo, respeitando a vida (Noé Ribeiro)”. Foi em sua simplicidade de condição humana que meu avô se tornou um gigante, para mim. A numerosa família jamais ouviu dele um maldizer. Homem de fala mansa e sensatez. Pouco falar e muito ouvir. Bem diferente de mim, que falo pelos cotovelos, falo alto, e se me apertar muito, ainda tenho a desmedida de querer reclamar. É que estou em processo de polimento. Ainda tenho muito a aprender.

Também em Eclesiastes, 4. 9-10, está escrito: “Melhor é serem dois do que um [...], porque, se um cair, o outro levanta o seu companheiro”. Foi nesta certeza, que estivemos lado a lado, por uma vida inteira, fosse nos momentos mais árduos, fosse nos melhores momentos. Quantas internações, quantas viagens, quantas pescarias... fizemos juntos. “Tenho um livro sobre águas e meninos. / Gostei mais de um menino / que carregava água na peneira. // [...] A mãe reparou que o menino / gostava mais do vazio, do que do cheio. / Falava que vazios são maiores e até infinitos” (Manoel de Barros). Nos infinitos de meu avô, encontrei tanto preenchimento de mim.

Quantas confidências! Quantas risadas explodiram de nossas contações de histórias. Quantas invencionices ele tretava, só para nos matar de tanto rir. Empatia talvez seja uma palavra até adequada, mas prefiro AMOR, para ilustrar todo o cenário. Eu quis muito aprender com ele, e algum aprendizado há de ter sido incrustrado em mim. O tempo o dirá.

“Quanta resiliência a vida lhe exigiu, Noé!” Ele venceu a gripe espanhola, venceu 10 malárias, venceu a chagas, venceu tantas batalhas, que eu não saberia enumerá-las. Até que, no auge de seus 102 anos, após sua última viagem ao Mato Grosso, onde amava ir ver o rio Araguaia e enfrentar o beliscãozinho dos peixes no anzol; e 20 dias após manusear o facão, com maestria, para retirar uma “gueiroba” do pé, das muitas que ele mesmo plantou, ele entrou em sua última batalha. Lutou bravamente pela vida, mas era chegado o seu tempo.

Por uma semana, parece que recitávamos “Ando muito completo de vazios. Meu órgão de morrer me predomina. Estou sem eternidades. Não posso mais saber quando amanheço ontem. Está rengo de mim o amanhecer. Ouço o tamanho oblíquo de uma folha. Atrás do ocaso fervem os insetos. Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino. Essas coisas me mudam para cisco. A minha independência tem algemas” (Manoel de Barros). Ele nunca quis espichar conversa, além do necessário. Deixou a vida seguir seu curso. E foi nessa entrega à naturalidade da vida que ele se foi para “Além do Rio Azul”. Naturalmente, ele seguiu para sua próxima missão, uma nova vida que está além do nosso saber e compreensão. Desse modo, enquanto um amigo entoou a canção “Além do Rio Azul” (grupo Voz da Verdade), acenamos nosso até logo.


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