01/05/2021 às 09h16min - Atualizada em 01/05/2021 às 09h16min

Uma conta fácil

ALEXANDRE HENRY
Há algumas semanas, cerca de cinco mil pessoas participaram de um show da banda “Love of Lesbian” em Barcelona, na Espanha, sem qualquer distanciamento social. Eram, em sua maioria, pessoas jovens, as quais viraram alvos relativamente fáceis das novas variantes do coronavírus. Você já pode imaginar o resultado desse show, não é mesmo? Pois, se você imaginou que foi um show também de contaminação pela COVID, você se enganou.

Tratava-se de um experimento. Como relata a reportagem da revista Época, “No dia do show, todos os participantes tiveram que se submeter a um teste de antígeno, que é mais rápido e mais simples do que os exames PCR. Esse teste não requer análises laboratoriais e seus resultados são revelados em 15 minutos. Somente aqueles que tiveram teste negativo foram autorizados a entrar no concerto”. Você já deve estar pensando: “Ah, mas se todo mundo testou antes do show, é claro que a contaminação seria muito pequena!”. Porém, como a própria reportagem destacou, não era o teste PCR e, sim, o de antígeno. Em resumo, muita gente ali poderia estar contaminada em uma janela temporal não detectável pelo exame que foi feito. Então, o que explica o fato de, aparentemente, apenas seis pessoas terem contraído COVID depois disso, sendo que quatro delas se contaminaram comprovadamente em outros locais que não o show?

Entra aqui um cuidado simples e absurdamente barato: todos os participantes tiveram que utilizar máscaras no tipo FFP2, também conhecida como N95. Já se comprovou que praticamente todas as transmissões se dão pelo ar. As máscaras desse tipo são capazes de filtrar até 94% das partículas transportadas pelo ar. Todo mundo usando máscara levou a qual resultado? Quase zero de contaminação.

É o que eu já falei aqui em outras ocasiões. Se nós tivéssemos utilizado essas máscaras, direitinho, desde o começo da pandemia, ou pelo menos desde o momento em que elas ficaram mais acessíveis, a situação não estaria como está. Evidentemente, só isso não é suficiente para zerar a contaminação, pois há locais em que não dá para se proteger, como restaurantes, e tal fato exige medidas mais restritivas. Além disso, a contaminação somente seria freada de forma relevante na medida em que o uso das máscaras fosse correto, contínuo e cuidadoso. Basicamente, cada pessoa somente ficaria sem máscaras perto daquelas com as quais mora. No meu caso, eu ficaria sem máscara perto da minha esposa ou da minha filha. Trabalho? Máscara a todo momento. Na rua? A mesma coisa. Visitando o irmão, a mãe, a sobrinha? Idem. Enfim, em hipótese alguma alguém ficaria sem máscaras perto de outra pessoa que não habitasse a sua própria casa.

Se isso fosse feito, estou certo de que a contaminação seria ridícula. Infelizmente, não foi o que aconteceu no Brasil, país que acumulou mais de 400 mil mortos nesta semana e que teve formadores de opinião não apenas deixando de usar máscaras, mas também estimulando a rejeição a elas, inclusive taxando seus adeptos de adjetivos depreciativos. Foi e tem sido uma insanidade gigantesca, inclusive do ponto de vista econômico. Vamos fingir que o mais importante não é a vida da pessoa, vamos esquecer por um segundo o valor que cada um tem para a sua família. Fiquemos só nos números mesmo. Um dia na UTI custa facilmente R$ 1.500,00. Nesta semana, Uberlândia teve, em média, 215 pessoas na UTI todos os dias, isso porque nossos números melhoraram muito. Assim, em uma conta simples, o custo total só das internações em UTI na cidade, por dia, dá para comprar mais ou menos umas 60 mil máscaras FFP2. Como essas máscaras, se utilizadas com cuidado e por pessoas comuns, fora de ambientes hospitalares, podem ser reutilizadas algumas vezes, já deu para perceber que o custo delas é bem menor do que o simples custo de UTI. Isso, claro, desprezando-se os demais tipos de internações, os medicamentos, as despesas funerárias, as pensões e por aí vai.

Em resumo, o maior desastre da pandemia desenfreada é a perda das vidas. Não há como precificar a dor da morte de alguém querido. Mas, para além disso, há também a parte financeira e o cálculo de quem desprezou o poder das simples máscaras é um cálculo burro do ponto de vista das finanças públicas. Como demonstrou o show em Barcelona, uma simples proteção como essa teria evitado não apenas milhares de mortes, mas também os longos períodos de fechamento do comércio. Uma tragédia que, definitivamente, poderia ter sido ao menos parcialmente evitada.
 


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