01/05/2021 às 09h15min - Atualizada em 01/05/2021 às 09h15min

Confuso, difuso, disperso

IARA BERNARDES
Foto: PIXABAY
Quando começo a escrever, parece que minha mente paralisa, nada funciona e não sei como chegar ao final de um texto. Confesso que nem sempre fora assim, antes tudo fluía e as palavras jorravam fartas, sendo materializadas através dos movimentos mágicos dos meus dedos. No entanto, as coisas já parecem não funcionar como antigamente, um antigamente não tão distante, mas que parece séculos vividos em poucos meses.

Me percebo cansada, dispersa, com pensamentos difusos e inconsistentes, me parece mais a vida que estamos vivendo, pois ainda me pego sonhando que estou em um pesadelo, em que um buraco sempre parece me engolir.

Não acredite ser a depressão, essa aí está guardada no lugar em que a coloquei, numa gaveta funda, misturada a tantas tralhas que não podem ser mexidas, muito menos decodificadas, está escondida em meio à bagunça mental que foi encaixotada e enfiada em um armário qualquer da minha alma.

Pode ser a pandemia. Mas será? Acho que não, já me vi assim outras vezes, sempre envolta a um redemoinho e depois à uma calmaria tão silenciosa que é necessário gritar muito para se perceber vivo. O grito às vezes alimenta a vida de quem não consegue viver em águas paradas. Eu queria poder conseguir parar e observar sem falar, aprender a calar, não o silêncio barulhento dos pensamentos, mas aquele silêncio que acalenta o espírito, que nos faz dormir sem pensar, tranquilidade em meio ao caos. Acho que é isso, queria poder ser tranquilidade, mas só o caos faz parte de mim nesse momento. Caos e choro, este sim silencioso, escondido e quase proibido.

Vejo as pessoas falarem que querem fugir com os filhos, ou que não estão cansadas de serem mães, mas não estão cansadas da maternidade. Como pode isso? Não entendo, porque parece que às vezes é tanto barulho que não existe silêncio possível, mas quando o silêncio acontece no meio da noite, algo errado soa no ambiente. Ser mãe, hoje, é o que me nutre, o que me salva do caos dentro de mim, ao mesmo tempo que o alimenta e o cultiva.

Sim! Pensamentos soltos, confusos, difusos, dispersos, presos na rotina que faz a máquina girar, máquina que funciona com responsabilidade, sem parafusos soltos, ajustada com periodicidade para que não quebre, nem pare de engrenar. É isso: engrenagens! Tantas engrenagens que me perco em meio a elas, sendo espremida, distorcida, liquefeita, escorrida entre aqueles dentes que se encaixam e fazem um grande relógio funcionar.

Acabo de me descobrir óleo: minha alma é o óleo, meu corpo é a máquina e minha fé é a força motriz! E quer saber? Acho tudo isso tão lindo! Afinal, a máquina funciona, tudo está ajustado e é isso aí, tudo “isso” é “SÓ” a vida acontecendo.

Chega um momento em que devemos parar de romantizar a vida, colocar tantos “e se” e tantos “porquês” numa coisa que é só ajustar, lubrificar e fazer mover, assim, cotidianamente, ordinariamente e simplesmente belo, porque afinal, em determinado corriqueiro da vida nos percebemos menos egoístas, escolhendo viver sem reclamar, só fazendo a máquina girar. Desse modo o ordinário me parece lindo e como é lindo!

Às vezes o que precisamos para nos salvar é isso: dar passos firmes em meio a pensamentos confusos, difusos e dispersos.



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