02/04/2021 às 08h20min - Atualizada em 02/04/2021 às 08h20min

O gringo

WILLIAM H. STUTZ
Branco, muito branco. Sanguíneo. O calor sufocante dos trópicos quase o matava. O suor descia torrencialmente por sua gola tal qual as chuvas que, quando menos se esperava, desabavam momentaneamente refrescando tudo, mas que em segundos se transformavam em ondas insuportáveis de mormaço e vapor úmido.

Tinha sido marinheiro e navegara águas geladas nos longínquos mares do Pacífico.

Após a guerra, como recompensa pôde cursar uma universidade às expensas de seu governo, qualquer curso, escolheu filosofia, sabe-se Deus o motivo. Talvez pelo fato de ser mais fácil, menos cansativo.

Durante o curso conheceu uma moça no elevador da universidade, pequena, desajeitada, meio diferente.

Puxou assunto. Era brasileira e que ali estava cursando mestrado. Conta que foi paixão à primeira vista. Ou quem sabe vislumbre de um passaporte para outra vida, longe das pressões de um país quase em reconstrução pós-guerra e à beira de outra depressão econômica.

Ainda durante a "viagem" de elevador convidou-a para jantar. Ela aceitou de pronto, talvez surpresa com o porte atlético do moço, resultado de muita física e trabalho duro a bordo de sua fragata de guerra.

Namoro rápido, literalmente rápido e uma semana depois, diante de um juiz de paz ou um representante legal da prefeitura, não sei ao certo, se casaram.

A lua de mel foi, na realidade, a volta dela, agora acompanhada, para o Brasil. De navio. Santo Padre, a moça quase morreu de tanto passar mal, passou a sopa e remédio contra enjoo toda a viagem. Ele acostumando, passava os dias jogando bocha no convés e relaxando na piscina.

O desembarque foi em Salvador, para espanto dele.

Ao observar o movimento do porto chegou a jurar que a nau errara o caminho, e como em outra história, só que ao contrário, viera dar nas costas da África.

Estivadores de puro ébano movimentavam-se numa bagunça organizada, carregando e descarregando navios das mais variadas bandeiras. Cores e cheiros, principalmente cheiros novos, exóticos o confundiam e o encantavam. Cacau em abundância, sacas e mais sacas de café, fardos de fumo em rolo. Frituras, dendê.

E os sons, como lhe soavam estranhos aos ouvidos, linguagem gutural aquela, seria Chiwemba? Afinal, bem que poderia estar em Zâmbia. Não, lembrava mais o Bamanakan ou bambará do Senegal. Era puro baianês, explicava a moça, só isso. Não estava de todo convencido, mas vá lá, a terra é dela.

O calor era mitologicamente inacreditável para ele.

Após curta estadia em terras baianas, rumaram de jardineira para Minas Gerais, interior, terra da família da moça. Estrada de terra, infinitamente longa, solavancada, buracos e areais sem fim.

Amarrotada viagem, foi a vez do gringo passar mal. Vingança da moça, por causa do navio? Pode ser, pode ser...

Na pequena cidade o primeiro dia foi de apresentações. Afinal, o casamento tinha se realizado a contragosto da família dela. Até chantagem de deserdo e morte por desgosto teve que ouvir, e enfrentar.

Mas, afinal, estava casada e presente para mostrar que o noivo era de verdade.

Programou-se um grande almoço de boas-vindas para o jovem casal. A família veio toda. Tanto os da cidade quanto os das fazendas e vilas, um povão.

Todos queriam ver, tocar e falar com o noivo, que a certa altura tinha entregado o corpo e alma pois já não mais sabia o que fazer. Apenas colou um sorriso idiota no rosto e pronto.

- For God's Sake this won't, this cant't last forever - pensava ele, dentes trincados, à beira de um ataque de pânico.

Lá pelas tantas e depois de se ver obrigado a provar algumas doses de cachaça, um tio da moça, roceiro de tudo, de punhal de prata na larga cinta de couro e botas até o joelho, se pôs a puxar conversa com o moço do sorriso duro. Aos brados, em tom capaz de assustar passarinho no ninho e gesticulando muito, com o rosto rubro de embriaguez quase colado no do marinheiro, agora de primeira viagem por terras tupiniquins, gritava e cuspia, um horror:

- ESTÁ GOSTANDO DA TERRINHA? JÁ PROVOU DA FEIJOADA DA COMADRE?

E assim a coisa já ia longe. O gringo sentia a cabeça zumbir, efeito dos gritos e do álcool da maldita aguardente. Calor e moscas em frenesi pareciam rondar todo seu corpo.

O acontecido estava prestes a adquirir proporções gigantescas, quando depois de muito tentar se desvencilhar das primas, e das amigas de infância a noiva correu em socorro do moço.

- Tio, pelo amor de Deus, fala mais baixo! Não adianta gritar! O moço não é surdo, ele só não entende.

E esta relação estava fadada a durar longos anos.
 


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