27/03/2021 às 10h02min - Atualizada em 27/03/2021 às 10h02min

EU VOU ME MATAR!

IARA BERNARDES
Foto: PIXABAY
“Eu vou me matar!”. Essa foi a frase que me atropelou como um trem e martela na minha casa há alguns dias. Logo essa frase que ecoou por meses a fio na minha mente, eu me imaginando ali, protagonista da minha própria morte. Logo comigo, que há pouco tempo superei essa vontade e não sei como ajudar alguém que pede socorro assim, “na bruta”. Logo eu que não sei como ajudar essa pessoa, sendo que eu custei a me ajudar. Logo pra mim que gritei em silêncio por tanto tempo, pedindo um acalento que não aparecia. Logo eu que varri o fundo do poço da depressão por anos, ouvindo aquilo, sem saber como ajudar soltei: “Amiga, eu estou aqui! Como posso ajudar você?”

Quando ouço alguém dizer que se curou da depressão, tenho muitos motivos para não acreditar, mesmo porque não acredito mesmo que haja cura para ela, controle sim, cura não. Estamos sempre vigiando para que ela não bata à nossa porta e nos pegue pelo pescoço, nos enfiando em um buraco escuro, reféns de angústias que insistem em assombrar. Fantasma escondido debaixo da cama, só esperando aquela espiadela para nos arrastar para aquele lugar horroroso, frio e solitário.

Não sou eu quem quer se matar, mas poderia (novamente).

Estou falando de uma mulher extremamente inteligente, competente, mil e uma habilidades e extensa lista de qualidades, dentre elas, generosa, amiga, dedicada e esperta, sem contar tantas outras que deixaria escapar sua identidade que deve permanecer secreta, assim como as lágrimas que ela tentou esconder a me confessar essa vontade. Vontade não, decisão. Ela já decidiu, ela vai mesmo se matar e eu não sei o que fazer para ajudá-la a mudar de ideia.

A minha vontade era ligar para o marido e dizer: ela vai se matar, volta logo pra casa, mas seria alarmista, afinal ele a encontraria viva, sorrindo um sorriso forçado, não fingido, mas preso à obrigação de sorrir, acorrentado à pressão de estar viva, agarrada a uma vida que ela quer gostar de ter, mas não enxerga muito propósito.

Essa mulher poderia ser você, que acorda todos os dias e antes de se levantar coloca na balança tudo de bom e de ruim e reflete se hoje vai ser o dia de dar cabo da sua vida, ou se por 100mg de antidepressivo compensa tentar um pouco mais. Então respira, abraça o esposo, faz um carinho nos cachorros, senta em frente ao seu computador e faz o que sabe fazer de melhor: se doar em forma de trabalho e excelência, chorando entre uma resolução e outra, se agarrando à necessidade de se manter respirando e na esperança de que as coisas vão melhorar. E eu ali, a ver pela WebCam a vida daquela mulher passar, inteirinha, em 45 minutos de conversa.

Aí eu penso, como posso ajudar? E ela novamente pede socorro ao dizer: “estou pedindo ajuda há muito tempo, mas quase ninguém tem me ouvido.” E eu, mais uma vez só posso me colocar à disposição, porque no fundo eu não sei mesmo como ajudar, afinal, criou-se um vácuo na minha mente que não lembro como saí dessa, me recordo de muita oração, me afastar de quem não me fazia bem e mais uma vez orar. Foi assim que consegui sair, eu acho, vivendo um dia de cada vez e crendo que existe algo maior que eu, uma força que não é minha, mas está dentro de mim, me fazendo acordar, trabalhar e caminhar cada dia um pouco mais. Porém, no fim das contas, não sei mesmo como a decisão saiu de mim, porque se soubesse, quem sabe daria uma receita pronta e tcharan!!! Faria aquela dor desaparecer.

Não é frescura, não é para chamar a atenção, é só dor e solidão. É estar só em meio a 20 pessoas que te amam e que se importam com você, mas que talvez não te enxerguem o suficiente para ver a imensidão de dor que há ali dentro.

Minha querida, queria entender a tua dor, mas na verdade eu não entendo, queria também te ajudar e entregar uma fórmula mágica para te salvar, no entanto, a única pessoa que a tem é você mesma. O que posso te dizer é que sim, vale a pena colocar um grão de areia a mais do lado que faz pesar estar aqui nessa louca vida com a gente.

A todos os que estão cegos para as dores do outro, por favor enxerguem os pequenos pedidos desesperados de socorro que aparecem no grito do silêncio e no vazio do olhar.



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