20/03/2021 às 08h58min - Atualizada em 20/03/2021 às 08h58min

Os sintomas que podem permanecer após a COVID

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
Foto: PEXELS
Dados oficiais mostram que o número diário de novos casos e de óbitos por COVID em nossa cidade aumentaram progressivamente desde o início do ano. Nas últimas semanas, a cidade de Uberlândia bateu recordes negativos sucessivamente.
 
Chegamos a ter, em um só dia, 36 novos óbitos em decorrência da COVID-19! Foram mais de 500 casos novos casos confirmados por dia, por vários dias consecutivos! Só em nossa cidade, já temos mais de 74.000 casos confirmados (são mais de 11,5 milhões no país) e mais de 1.350 óbitos (mais de 285.000 no Brasil). Temos, atualmente, cerca de 800 pacientes internados só nos Hospitais da cidade pela COVID.
 
A situação dramática e caótica vivida nos hospitais da região nas últimas semanas foi inédita. Nunca havíamos experimentado uma situação tão desconfortável e ameaçadora por aqui, tanto ao nível da saúde pública quanto privada.
 
Hoje, após mais de um ano de pandemia no país, já sabemos muito sobre as manifestações clínicas causadas pela infecção pela cepa original do SARS-COV2. Entretanto, estamos ainda tentando compreender as diferenças nas manifestações causadas pelas novas variantes do vírus. Sabemos, por exemplo, que uma parte dos pacientes que entram em contato com a cepa original nem chega a desenvolver sintomas de COVID. Pessoalmente, acredito que este número de pacientes que permanecem assintomáticos possa ser bem menor com as novas variantes do vírus.
 
Isto poderia ajudar a explicar porque tivemos um aumento tão importante do número de casos confirmados nesta nova onda da doença. Ou seja, se a grande maioria dos contaminados pelas novas variantes acaba tendo sintomas, o número de diagnósticos acaba subindo, pois mais pacientes procuram atendimento pelos seus sintomas.
 
Sabemos também que a grande maioria dos pacientes que ficam sintomáticos vão desenvolver “apenas” sinais de uma gripe comum, que vai durar até 10 dias, e vão se recuperar rápida e progressivamente após este período. Assim, estes pacientes vão apresentar uma série de sintomas que irão permanecer por até 10 dias (tosse, espirros, dor de garganta, febre, dor de cabeça, dor no corpo, diarreia, náuseas, perda de olfato e paladar.
 
Ou seja, independentemente da contaminação ser pela cepa original ou por uma das variantes do coronavírus, a maior parte dos pacientes sintomáticos não vai desenvolver um quadro de pneumonia viral e nem de consequente síndrome respiratória aguda grave secundária. Ainda, até o que se sabe hoje, esta resolução do quadro gripal não parece depender do uso de uma ou outra medicação do chamado “tratamento precoce da COVID”.
 
Infelizmente, cerca de 10% de todos os infectados irão reagir mal à agressão viral. Nestes pacientes, a agressão inflamatória do próprio organismo contra o vírus (reação inflamatória sistêmica) acaba sendo muito exacerbada. Deste modo, esta reação inflamatória generalizada acaba prejudicando o funcionamento de alguns órgãos nobres como pulmão, coração e rins. Esta reação inflamatória, que está intimamente associada ao grau de acometimento pulmonar pelo vírus, pode, inclusive, levar a danos graves a diversos órgãos do corpo, podendo até resultar em óbito.
 
Todos estes sintomas, relacionados à fase aguda da COVID, já são bem descritos e podem durar algumas semanas e são didaticamente englobadas no cenário clínico da “COVID aguda” (até 30 dias após o primeiro sintoma). Entretanto, infelizmente, muitos pacientes permanecem com diferentes sintomas, que vão além destes 30 dias iniciais...
 
Os estudiosos têm dado diferentes nomes a esta síndrome clínica observada após os 30 dias iniciais: COVID sintomática persistente (sintomas até 8 semanas), Síndrome pós COVID (até 12 semanas) e COVID longa (sintomas que persistem mais que 12 semanas após o quadro inicial).
 
Estes sintomas, que persistem após os 30 dias iniciais, variam muito e podem atrapalhar bastante a qualidade de vida dos pacientes: déficit de memória e atenção, distúrbios do sono, irritabilidade, depressão, ansiedade, alterações visuais, do olfato, do paladar, taquicardia, palpitações, tromboses arteriais e venosas, oscilações da pressão arterial, dores no peito e na cabeça, tontura, dores no corpo, dormências (neuropatia periférica), falta de ar e emagrecimento são alguns dos sintomas mais comuns que podem acompanhar o paciente por, pelo menos, alguns meses após a infecção.
 
Estes sintomas, que persistem por várias semanas após o quadro inicial, não necessariamente guardam correlação com a quantidade ou a intensidade dos sintomas da fase aguda, podendo, inclusive, estar presentes mesmo em pacientes que tiveram um quadro apenas leve da infecção viral.
 
Por tudo isso, recomenda-se que todos os pacientes que apresentaram um quadro sintomático de COVID passem por uma boa avaliação clínica, de preferência, com um cardiologista ou pneumologista para avaliar possíveis sequelas provocadas pela infecção pelo SARS-COV2.

 
Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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