19/03/2021 às 14h26min - Atualizada em 19/03/2021 às 14h26min

Cerzideira invisível

WILLIAM H. STUTZ
Para moço de Uberaba, um simples cidadão do interior, como se autointitulava, nascido e criado no Amoroso Costa e recém-chegado à capital, esta Belo Horizonte oferecia muito desafio e novidade. A começar pelo aperto que as montanhas ofereciam aos vindos do cerrado livre de serras e daquela terra esquisita e feia, onde difícil era acreditar que algo ali vingava.

Mas nada melhor para conhecer a antiga Curral Del Rey do que andar de ônibus e espiar pela janela. A linha Getúlio Vargas 23 dava volta quase completa na av. do Contorno e dava visão geral dos quatro cantos da metrópole. Pegando ali na praça da ABC, podia-se admirar, um pouco à frente, o movimento da sorveteria Seu Domingos, onde, se desse sorte, duas ou três meninas de saia plissada cinza, blusa branca e a indefectível gravatinha verde, uniforme tradicional do Colégio Estadual, entrariam ônibus adentro ainda a saborear delicioso sorvete em casquinha de biscoito.
 
Mais adiante, a praça e a padaria Savassi, de onde sempre vinha constante delicioso cheiro de pão fresco, fornada a cada 10 minutos. Uma olhada para direita e daria para ver o movimento à frente do Cine Pathé, que, como quase todos os espaços ocupáveis Brasil a fora, virou igreja evangélica. Hoje, se não estou enganado tem lá é um estacionamento.

Adiante, depois da curva à direita, passava-se pela boca do bairro Santo Antônio até beirar bem lá na frente o primeiro ponto na rua Rio de Janeiro. Ali desciam as meninas e os frequentadores do Minas Tênis. Mas nada mais interessante do que observar anúncios e placas. Lojas Peps, Churrascaria Camponesa, Casa Sloper e seus anúncios chiques ladeavam o popular cartaz da Loja Abdalla: “O Abdalla é fogo na roupa, é roupa na fogueira pra queimar em grande escala”. E a vida do estudante do cerrado corria solta cheia de novas mensagens.

Certa feita, quase chegando ao ponto final do ônibus, displicente olhou para as janelas do edifício Maleta e deu com uma placa que iria tira-lhe o sono por muitos dias. A placa, em papelão de caixote apresentava em letras garrafais apenas duas palavras: CERZIDEIRA INVISÍVEL. Só isso, mais nada, mas foi o bastante para a imaginação do jovem do Triângulo ir até “Vila dos Confins” ou até Macondo dos Buendía da infância, buscar entendimento para aquilo. Cena fantasmagórica, som de ranger de velhas dobradiças povoavam seus pensamentos. Imaginou-se batendo à porta daquele lúgubre apartamento, a porta lentamente se abrindo.

Lá dentro, a penumbra e o forte cheiro de incenso, um som desconhecido o guiaria até uma sala, onde uma figura em negros trajes, rosto oculto lhe estenderia magra mão. Haveria um saco de ossos escondido em algum canto? Seu coração acelerava e frio lhe percorria a espinha só de pensar o que mais ali poderia acontecer. Uma vela acessa faria silhuetas a dançarem frenéticas paredes. A paralisia do medo que o impedia de sair de lá a galope. Temor sem pé nem cabeça, mas que atravessaria o tempo. Só saia de seus pensamentos quando o ônibus chegava ao ponto final. Rápido descia rumo à faculdade.

Costurava a calçada, até chegar ao viaduto da Floresta. Num lance de olhar sem intenção nenhuma, topa com outra placa pregada no sujo concreto: PASSA-SE TRU TRU. Pronto! Era mais uma viagem imaginária garantida a lhe fazer companhia em seu solitário cotidiano urbano.



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