13/03/2021 às 08h37min - Atualizada em 13/03/2021 às 08h37min

Um sopro de humanidade

ALEXANDRE HENRY
O mocinho nasceu há pouco mais de um ano e, com alguns meses, apareceram os primeiros sinais de que alguma coisa não estava certa. Ele tinha um desenvolvimento mais lento, não conseguia sentar e fazer outras coisas que bebês da idade dele já estavam fazendo. Minha esposa percebeu, a avó dele percebeu, mas um pediatra que o atendeu disse que ele não tinha nada. Só que era evidente o problema. Demos então um jeito de levá-lo a um neurologista, ele fez exames e ficou comprovado que ele realmente vai precisar de um apoio muito forte para conseguir vencer seus problemas de saúde.

Essa criança é neta de uma pessoa que trabalha conosco há muitos anos. Deixo de lado os detalhes para preservar a identidade dele e porque não é o mais importante para o assunto aqui. Bom, o fato é que ele foi encaminhado para a AACD e começou o atendimento nessa instituição que é, sinceramente, uma benção na vida de tanta criança brasileira. A atenção praticamente integral que eles oferecem para a meninada com deficiência e, em sua grande maioria, carente de recursos, é algo de aquecer o coração e de fazer se acreditar um pouco mais na humanidade.

Mas, o mocinho da nossa história acabou precisando de alguns equipamentos que a AACD não poderia fornecer com a rapidez que ele precisava. Aquilo estava me angustiando e, na sexta-feira, 05 de março, pensei em uma forma de ajudá-lo. Ponto para as ferramentas tecnológicas, as quais realmente dão uma mãozona nessas horas. Eu peguei uma foto dele, fiz um texto bem curto, coloquei a chave PIX para quem pudesse fazer doações e mandei em alguns grupos. Na hora, eu pensei: gente, com tanto golpe na praça, acredito que muitas pessoas não doarão por medo de cair no conto do vigário. Ponto novamente para a tecnologia: gravei um vídeo bem curto no celular mesmo e mandei junto com as outras mensagens, mostrando meu rosto e falando que realmente o pedido era meu.

De início, fiquei com receio do dia e hora da mensagem. Sexta-feira, final de expediente, a maioria das pessoas pensando no final de semana, achei que talvez não fosse o momento mais adequado. Mas, estamos em uma pandemia, com isolamento social em boa parte do país, o que provavelmente contrapôs eventuais problemas de “timing”. Fato é que, em cinco minutos, foi feita a primeira doação. Menos de quatro horas depois, já tínhamos levantado um valor suficiente para o que o mocinho precisava e também para apoiá-lo em outros pontos durante mais um tempo. Como há mais gente precisando de ajuda, mandei uma mensagem nos grupos, agradeci e disse que já tínhamos o bastante.

Tirei algumas lições daquela sexta-feira e reafirmei certas convicções também. De início, lembrei-me da época em que eu fui aprovado no concurso para juiz. Eu tinha feito um compromisso de doar para ações de caridade uma parte significativa do meu primeiro salário. Quando chegou o momento, eu simplesmente tinha o dinheiro, mas não sabia para quem doá-lo. “Como não sabia, se há tanta gente precisando?” – você pode pensar. Sim, gente que precisa de ajuda no Brasil é o que não falta. Porém, boa parte da classe média brasileira vive em uma espécie de bolha que não tem contato direto com pessoas necessitadas ou instituições de caridade. Claro, existe realmente uma parcela engajada na parte social, mas não é a maioria e não vou ser hipócrita de dizer que eu era engajado. O fato é que, assim como eu, tem gente que eventualmente quer ajudar, mas acaba não sabendo como.

Entra nesse ponto outra questão: as pessoas são mais dispostas a ajudar casos concretos e específicos do que ações “sem rosto”, digamos assim. Se você entrar na internet, vai encontrar trabalhos muito bonitos, como o dos “Médicos Sem Fronteiras”, mas são ações que acontecem em locais distantes e quem ajuda não consegue vislumbrar o rosto ajudado. Não deveria ser assim, mas acaba sendo. Chegamos então a dois pontos que auxiliaram nessa rápida campanha que fiz: a criança a ser amparada estava ali, era alguém com um rosto identificado, e o pedido de ajuda acabava sendo uma oportunidade para quem queria doar, mas não sabia para quem ou de que forma.

Ainda tirei outras conclusões. Mesmo com um mundo embrutecido, com as pessoas cheias de rancor e individualismo, a sociedade ainda é composta por uma parcela considerável de gente de bom coração, que quer fazer algo de bom em prol do semelhante. Em meio a uma pandemia que traz tanto sofrimento, viver essa experiência e reforçar minhas convicções de que há muitas pessoas boas foi algo verdadeiramente marcante para mim.

 
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