23/02/2021 às 08h00min - Atualizada em 23/02/2021 às 08h00min

O perdão do Padre Mário

ANTÔNIO PEREIRA
A nossa primeira paróquia foi a de Nossa Senhora do Carmo que já vinha do século XIX. Em torno da sua matriz, que ficava onde foi a Biblioteca Pública Municipal, nasceu a cidade. As raízes uberlandenses, pois, estão comprometidas com a fé cristã porque foi por ela que nestas terras se construiu a capela pioneira e foi ao redor da capela que a cidade se instalou.

A segunda paróquia foi a de Nossa Senhora Aparecida. Esta vem de 1945 e foi criada pelo Bispo Diocesano, dom Alexandre Gonçalves Amaral, em razão do desenvolvimento da cidade que já ultrapassava a capacidade da paróquia velha.

O primeiro pároco da segunda paróquia foi o tcheco João Batista Balke, um padre dinâmico que trouxe muitos melhoramentos para o bairro. Foi ele quem inaugurou, em 1947, o Instituto Cristo Rei que pretendia, segundo orientação de dom Alexandre, ser o guia espiritual da classe operária. Em 1957, chegou a Uberlândia o padre Mário Forestan para dirigir o Instituto. Substituiu o padre Zanor Rosa que, então, era o seu diretor.

Mário Forestan era italiano de Quinto Vicentino onde nasceu a 19 de outubro de 1912, mas fez-se padre aqui, no Brasil, e, aqui, em Uberlândia, transformou-se num líder da juventude. Era pessoa querida que espalhava amizade para todos os cantos.

O Primeiro Ministro, Tancredo Neves, elaborou uma tabela de preços para as mensalidades das escolas particulares. Por motivos políticos, o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, foi contra a tabela. Sentindo-se protegidos, os donos dos colégios de Belo Horizonte não a respeitaram. Revoltados, os estudantes belorizontinos entraram em greve.      
Em Uberlândia, os colégios respeitaram a tabela.

No dia 26 de abril de 1962, representando o bispo dom Almir Marques Ferreira, o padre Mário compareceu a uma assembleia da UESU, no Cine Uberlândia, quando os estudantes decidiram entrar em greve. Eles não se opunham aos colégios, mas ficavam solidários com os colegas de Belo Horizonte. 

Padre Mário hipotecou a solidariedade do bispo e a sua aos interesses estudantis. Terminado o encontro, desceu a rua Santos Dumont e foi visitar seu amigo Angelino Pavan, vereador, maçom, ex-Venerável Mestre da Loja Seis de Junho. Padre Mário sabia que Angelino era maçom, mas não lhe guardava nenhuma repulsa, pelo contrário, respeitava-o. Tanto que lhe foi pedir opinião sobre certa tendência grevista que notara entre os estudantes. Pareceu-lhe que a decisão não havia sido definitiva, ainda assim, estava aborrecido porque os colégios de Uberlândia haviam respeitado a tabela.

Após a visita, Forestan tomou o caminho da paróquia. Vinha um tanto preocupado. Numa das passagens de nível que havia na avenida Monsenhor Eduardo, que acompanhava em paralelo os trilhos da Mogiana, viu, a tempo, uma composição que fazia manobras e parou sua Kombi. (*)

Ficou, entretanto, muito próximo dos trilhos e só notou isso quando o trem estava perto. O maquinista, Benedito Vicente Mendes, percebendo que fatalmente atropelaria o veículo, acionou os freios – exatamente quando o padre Mário percebeu sua falha e saltou do veículo. Não deu mais tempo. O vagão traseiro da composição colheu o carro e jogou-o sobre o padre. (**)

Benedito saltou da máquina e correu para o lugar do acidente. O padre estava nos seus últimos momentos.

Ajoelhou-se e pediu-lhe perdão. Mário voltou-lhe os olhos piedosos, brilhantes ainda, e balbuciou:

- Eu vinha muito preocupado... me precipitei...
E, quase inaudível, completou:
-          Eu te perdôo, sim...
 
(*) – O jornal Correio de Uberlândia, de 28/4/1962, dá que era um trem de passageiros.
(**) – Diz o mesmo jornal, da mesma data, que o padre caiu da Kombi e bateu a cabeça numa de suas rodas, quebrando o crâneo.
 
Fontes: Tito Teixeira, Monsenhor Antônio Afonso da Cunha, Aparecida Portilho Salazar, Cora Pavan Caparelli, Antônio Couto de Andrade jornais da época.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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