09/02/2021 às 08h00min - Atualizada em 09/02/2021 às 08h00min

Quem lacra lucra?

POR ALINE ROMANI
O acesso a novas tecnologias mudou consideravelmente a forma de executar as etapas convencionais do mercado de quadrinhos, desde a produção até o leitor. O caminho continua o mesmo: produzir, distribuir, e na ponta, o consumo. O que mudou foi a forma de fazer. A produção se torna mais rápida com a digitalização dos desenhos. A distribuição e o consumo ganham novas possibilidades com as redes sociais. Portanto, essas etapas não possuem direcionamentos puramente econômicos, já que estão atreladas as transformações sociais, tecnológicas e culturais.

Nos anos 80, cartunistas como Angeli, Laerte, Glauber e outros da exitosa Editora Circo já sabiam que era necessário se entender como grupo para se impor no mercado nacional e disputar nas bancas de revistas, em pé de igualdade, com o quadrinho estrangeiro.

Atualmente, podemos dizer que distribuir é também contar com um público fiel que compartilha a produção do cartunista, que é engajado e multiplica essa distribuição da sua obra. A tática coletiva não é um advento da internet, mas foi facilitada por ela. Sendo assim, podemos dizer que hoje é mais fácil ser independente de grandes editoras? Ser independente é uma alternativa ao capitalismo?

As questões culturais permeiam questões econômicas sem que exista uma hierarquia, em que uma dimensão define a outra, mas a relação entre elas tece o social de forma peculiar e complexa. Ao contrário de como era visto até o século XX pelo pensamento racional na economia natural, a economia em si não é um sistema dotado de leis imutáveis, mas também se relaciona com as vontades e decisões humanas.

Quando se trata do mercado de quadrinhos essa mudança também é temática. A Marvel percebeu isso em meados do século XX quando inseriu personagens negros e de outras nacionalidades em suas histórias de heróis. A internet não mudou apenas a forma de distribuir, mas intensificou as demandas de grupos minoritários, ampliou os assuntos que são abordados por cartunistas e o interesse de uma parcela do público antes excluída.

Além disso, cada vez mais o mercado se volta para os nichos, afundando de vez a ideia de cultura de massas, ou seja, de um produto elaborado para o consumo de um grande grupo heterogêneo. O conceito de cultura de massas nos faz refletir sobre os processos de transformação da arte que a conduziram a uma condição mercadológica. O problema ocorre quando se pressupõe que a produção industrial se sobrepõe também à produção cultural, que ao ser vendida em larga escala perde seu valor artístico.

Nesta perspectiva, o foco da análise da cultura de massa está sempre na superestrutura, em um sistema que impõe uma relação de dependência e inferioridade em relação à economia e aos interesses de uma classe dominante, omitindo e desconsiderando a percepção do consumidor. É um conceito pessimista, pois percebe a arte que popular como alienante.

Cada vez mais, os quadrinhos chegam até as pessoas porque cartunistas se mantêm atentos aos movimentos da sociedade e do mercado. Os quadrinhos engajados, que tratam de temáticas relevantes, principalmente para os jovens, como: sexualidade, gênero, prazer, feminismo, desigualdade, racismo e negritude, estabelecem uma troca com cada nicho e provocam uma sensação de pertencimento, contando com o engajamento desses grupos.

Para cartunistas mais jovens, não há contradição em perceber os quadrinhos como espaço não só de fomento cultural, diversão e comunicação, como também de consumo. No entanto, casos de apropriação cultural dos discursos minoritários serão cada vez mais comuns, já que o mercado percebe a necessidade de englobar essas temáticas que vêm sendo cobradas pelo público. Essa apropriação mercadológica é um fenômeno de esvaziamento, que descaracteriza aquele que inicialmente pretendia representar: e é neste ponto que mora a grande contradição social entre lacrar e lucrar.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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