06/02/2021 às 08h05min - Atualizada em 06/02/2021 às 08h05min

Quando falamos de saudade, a presença não é substituível

TÚLIO MENDHES
O primeiro caso da pandemia pelo novo coronavírus, SARS-CoV2, foi identificado em Wuhan, na China, no dia 31 de dezembro de 2019. Desde então, os casos começaram a se espalhar rapidamente pelo mundo: primeiro pelo continente asiático, e depois por outros países.Em fevereiro, a transmissão da Covid-19, chamou a atenção no Irã e na Itália pelo crescimento rápido de novos casos e mortes. O primeiro caso do Brasil foi identificado, em São Paulo. Em março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu o surto da doença como pandemia. As primeiras medidas de isolamento social foram adotadas lá em São Paulo a partir de 16 de março, e a quarentena, com fechamento dos serviços não essenciais, em 24 de março.

Desde então o isolamento social, causado pela pandemia, tornou-se desafiador para diversas pessoas em todo o mundo. Esse é um desafio que afeta nosso psicológico, uma vez que não envolve só a gente, mas também nossas relações interpessoais. Por consequência, não podemos mais ter o convívio face a face com nossos amigos, namorados, professores, chefes etc.

A realidade do presente é toda essa conjectura tem nos levado a realizar comparações, por exemplo, a diferença da felicidade digital “versus” a vida real. Afinal, nem sempre a felicidade digital exposta no “Instagram” e nas demais redes sociais é a realidade. Contudo, essa comparação não é nada saudável e tem afetado o emocional de quem “vive” acompanhando os perfis com postagens de encher os olhos, visto que tudo é muito glamouroso, com muitos sorrisos, fartura, beleza, riqueza, ostentação.

E é nesse parágrafo que lembro que há pouco mais de um ano temos redesenhado as fronteiras entre a intimidade e a solidão. Como assim? Bom... esses dispositivos tecnológicos que tanto nos seduzem oferecendo uma espécie de capa de proteção escondendo nossas vulnerabilidades, que jamais mostraríamos num encontro cara a cara. O universo virtual é um lugar seguro para quem tem medo da intimidade ou quer fugir das exigências de uma amizade, um relacionamento mais forte. Para muita gente, a ilusão de companheirismo, camaradismo é o bastante. No entanto, de repente, à meia-luz da comunidade virtual, é onde a ficha cai levando a sensação de vulnerabilidade e solidão.

Não é novidade que as redes sociais oferecem coisas boas. Mas o fato é que as relações virtuais não satisfazem tanto quanto a presença, pois tudo segue num ritmo mega acelerado. Os laços que formamos na internet não são, em última análise, os laços que nos unem. Mas são os que preocupam. Isso porque, em muitos casos, eles são frágeis. Não é raro as pessoas serem tratadas como "provisórias" na web ou "canceladas" quando surge alguém "mais interessante". Essa rotatividade é usada como um remédio contra o tédio. Só que no fim das contas, faz o usuário afundar cada vez mais na solidão. Além disso, as redes sociais capturam a atenção e o interesse de algumas pessoas de tal maneira, que elas não conseguem desgrudar os olhos das telas enquanto caminham, passeiam, viajam, comem ou mesmo quando estão sentadas a mesa almoçando com a família. Então, mesmo acompanhadas, elas permanecem sozinhas, já que não trocam palavras com quem está ali bem ao lado.

O curioso é que ao mesmo tempo em que parte das relações virtuais não vingam, outras duram a vida inteira. Não é a qualidade do vínculo que está em xeque. O que adoece os relacionamentos é a ausência do contato físico, mas contato verdadeiro. Uma coisa é o calor da presença, outra é essa mediação por telas. A expressão do corpo tem ficado extremamente atrofiadas.

Detalhes que num primeiro momento podem não parecer tão importantes, como expressões corporais, nos escapam quando estamos separados por uma tela. E são eles que enriquecem a nossa percepção, pois nos ajudam a compreender o que o outro está pensando e não expressa com palavras. Há coisas que só acontecem quando estamos fisicamente próximos, por exemplo, perceber com clareza o que um olhar está dizendo, sentir o perfume que nos “embebeda” de prazer vindo da pessoa que está do nosso lado, ou ainda a magia de observá-la tridimensionalmente, de tocá-la. São humanamente necessárias as interações físicas como beijos, abraços e apertos de mão, isso tudo é importante para formar e fortalecer relacionamentos. É o toque que nos faz liberar o hormônio oxitocina, que estimula os vínculos afetivos. E o relacionamento nas redes sociais oferece a possibilidade de atraso na resposta, diferente do ao vivo, quando se tem a conexão imediata acontecendo.

Enfim... esse momento transitório de pandemia tem sido uma oportunidade interessante para refletirmos sobre a vida e nossos relacionamentos.Essa experiência de isolamento social tem mudado o modo como sentimos e vivemos nossas relações. Acredito que mesmo depois da vacina, quando finalmente teremos mais chances de nos relacionarmos ao vivo, muito provavelmente haverá uma diminuição dessa tão tocante e prazerosa necessidade física e emocional.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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