21/01/2021 às 08h00min - Atualizada em 21/01/2021 às 08h00min

Oxigênio

IVONE GOMES DE ASSIS

Há um ano, assistimos, estarrecidos, o mundo se fechando. Vivemos um tempo sombrio. Eu, como pesquisadora sobre a Segunda Guerra Mundial, muitas vezes, choro sobre os livros, enquanto vou arrancando histórias dos escombros da própria história, mas nem de longe isso se aproxima da experiência tenebrosa que aquela gente viveu. Agora, veio o 2020 balançando uma coroa não reluzente. Uma coroa envolta no medo e na angústia. Uma coroa com cheiro de morte. Muitas vidas tiveram o seu set encerrado, deixando o filme inacabado. O mundo chora, copiosamente, por aqueles que foram levados, mas chora também por si, e pela condição desumana com a qual muitos doentes têm tido seu ciclo vital descontinuado.

Desde o mais ilibado ser até o mais tosco, desde o mais rico até o mais pobre, desde o mais intelectual até o mais humilde... indistintamente, a “coroa” vai sendo colocada nas cabeças, e estas vão trilhando em um caminho sem volta. A retroescavadeira e a terra têm uma fome insaciável. A máquina avança sobre o chão duro, rasgando a terra, e esta abocanha os corpos daqueles que perderam o direito de respirar.

Sabemos que vida e morte andam lado a lado, e isso é natural. Contudo, quando se trata de falta de recursos para tratamento, por incompetência pública, como o mundo tem assistido acontecer, cujas manobras políticas só foram capazes de agravar ainda mais a situação, não há como ver naturalidade. Isso não faz parte do cotidiano. Isso não é regra comum, muito menos adequada. Nossa Constituição Federal (Artigos 196 a 200) garante o direito à saúde para todos os cidadãos, portanto, as mortes por falta de recursos são, no mínimo, criminosas e ferem a Constituição. Foquemos, por exemplo, na família dizimada, nesta semana, em Manaus (AM), em que sete membros morreram asfixiados ao mesmo tempo, por falta de ar artificial.

No poema “O homem; as viagens”, de Carlos Drummond de Andrade, o poeta escreve: “O homem, bicho da terra tão pequeno / Chateia-se na terra / Lugar de muita miséria e pouca diversão, / Faz um foguete, uma cápsula, um módulo / Toca para a lua / Desce cauteloso na lua / Pisa na lua / Planta bandeirola na lua / Experimenta a lua / Coloniza a lua / Civiliza a lua / Humaniza a lua. // Lua humanizada: tão igual à terra. / O homem chateia-se na lua. / Vamos para Marte - ordena a suas máquinas. / Elas obedecem, o homem desce em Marte / Pisa em Marte / Experimenta / Coloniza / Civiliza / Humaniza Marte com engenho e arte. // Marte humanizado, que lugar quadrado. / Vamos a outra parte? / Claro - diz o engenho / Sofisticado e dócil. / Vamos a Vênus. / O homem põe o pé em Vênus, / Vê o visto - é isto? / Idem / Idem / Idem. // O homem funde a cuca se não for a Júpiter / Proclamar justiça junto com injustiça / Repetir a fossa / Repetir o inquieto / Repetitório. // Outros planetas restam para outras colônias. / O espaço todo vira terra-a-terra. / O homem chega ao Sol ou dá uma volta / Só para te ver? / Não-vê que ele inventa / Roupa insiderável de viver no Sol. / Põe o pé e: / Mas que chato é o Sol, falso touro / Espanhol domado. // Restam outros sistemas fora / Do solar a colonizar. // Ao acabarem todos / Só resta ao homem [...] / A dificílima dangerosíssima viagem / De si a si [...]: / Pôr o pé no chão / Do seu coração / Experimentar / Colonizar / Civilizar / Humanizar / O homem / Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas / A perene, insuspeitada alegria / De conviver”.

Desse modo, nesta incessante busca pelo desconhecido, o homem segue à procura de vidas cada vez mais longínquas, numa caça infundada, que o leva mais e mais para longe de si. Instaura-se uma cegueira conivente. E neste misterioso mundo de investigação, o homem se perde, e não se reencontra: falta-lhe bússola, norte, abraço, comida, remédio... oxigênio.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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