09/01/2021 às 08h00min - Atualizada em 09/01/2021 às 08h00min

As razões e ações de cada um

ALEXANDRE HENRY

Todos nós somos juízes da vida dos outros e, claro, das nossas próprias vidas. Alguns proferem suas sentenças em público, vociferando para o resto do planeta suas condenações ou absolvições das condutas alheias, enquanto outros comentam só com pessoas mais próximas. Há, ainda que raros, aqueles que guardam seus julgamentos apenas para si mesmos. Mas, o fato é que não existe ninguém que não julgue a conduta das demais pessoas.

Como esse é um comportamento universal e, até onde é possível perceber, inevitável, o melhor que se pode fazer é compreender como se dá nosso processo de julgamento não apenas dos outros, mas de nós mesmos. Para aprimorar um pouquinho a visão do mundo e das outras pessoas, é importante entender quais são as limitações a que cada um está sujeito.

Vou ser mais claro dando um exemplo que escutei outro dia em uma palestra. Pense em uma reunião presencial de trabalho ou com os colegas de escola. Agora, imagine primeiro que você acabou chegando vinte minutos atrasado, enquanto todos os demais chegaram no horário. Depois, imagine que você também chegou no horário, mas um dos participantes se atrasou. Qual é a tendência que todos nós temos?

Se foi você o retardatário, você provavelmente conhece as próprias razões: o trânsito estava muito pesado, alguém na sua casa precisou de sua ajuda, você não dormiu bem e teve dificuldades para se levantar, o pneu do seu carro furou e assim vai. Sabendo de suas razões, provavelmente você proferirá um julgamento do próprio comportamento muito mais ponderado, sem apontar o dedo para si mesmo como se você tivesse cometido um pecado mortal.

Agora, se a situação se inverte, provavelmente sua sentença não será a mesma. Imagine que você fez de tudo para chegar no horário certo daquela reunião de trabalho, esforço repetido pelas demais pessoas, exceto por uma delas, que atrasa vinte minutos, deixa todo mundo esperando e impede que os trabalhos se desenvolvam normalmente. Qual vai ser seu julgamento? Muito provavelmente, você considerará aquela pessoa preguiçosa, descompromissada, irresponsável e coisas do gênero. Por que seu julgamento será assim? Porque você não teve acesso às razões que levaram aquela pessoa a se atrasar. Pior do que isso, provavelmente você nem se interessará por tais razões, sendo suficiente para proferir seu julgamento o fato de que sua agenda diária foi prejudicada por aquele atraso alheio.

Percebeu como funciona a coisa? Quando julgamos nossos próprios atos, nós acessamos as razões para eles, que nos são conhecidas, e isso permite que a sentença seja mais “humana”. Quando julgamos os atos das outras pessoas, nós não temos acesso à mente delas, não sabemos o que levou àquele ato específico. No final das contas, acabamos sendo julgadores parciais, adotando medidas totalmente distintas quando julgamos nós mesmos e quando julgamos outra pessoa.

Só que isso traz algumas consequências não tão boas. Primeiro, leva a julgamentos equivocados sobre o que o outro fez. Sem entender por que ele agiu daquela maneira, você não saberá da história toda. E isso é importante? Claro! Aliás, até mesmo na esfera do direito penal, saber a razão de quem cometeu um ato considerado como crime é essencial para saber não apenas qual será a pena, mas se haverá pena em si. Há ainda outro lado: quando você tenta entender as razões alheias, dois caminhos positivos se abrem. Primeiro, se você não concorda com a maneira alheia de agir, você terá muito mais subsídio para mudar a outra pessoa do que quando você não tem a menor ideia do porquê daquele ato que você condena. Segundo, entender as razões alheias pode fazer com que você mude seu próprio julgamento, o que costuma ser bom em muitos casos.

Agora, falando do julgamento que cada um faz de si mesmo, é importante ter em conta o contrário. Geralmente, a gente leva em conta nossas intenções, nossos desejos, nosso querer interno, deixando de analisar se realmente as ações que tomamos refletem o que acreditamos por dentro. É por isso que muito religioso, por exemplo, acredita ter uma vida imaculada, ao mesmo tempo em que machuca outras pessoas de variadas formas. Por quê? Porque julga a si próprio de acordo com o que pensa, sem levar em conta o fato do agir não estar em harmonia com tais pensamentos.

Em resumo, já que é inevitável proferir julgamentos, que cada um tente entender as razões alheias quando for julgar o outro. E, quando julgar a si mesmo, tente ver se suas ações realmente condizem com suas crenças.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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