19/12/2020 às 11h35min - Atualizada em 19/12/2020 às 11h35min

​Trabalho remoto (na prática)

ALEXANDRE HENRY*
O ano de 2020 vai ficar marcado pela pandemia COVID-19, com toda certeza. E, evidentemente, por tudo o que é ligado a ela, como o trabalho remoto. Exercer as atividades desde casa era algo que eu já defendia havia muito tempo, tendo escrito mais de um texto aqui sobre isso. Sempre afirmei que não havia muito sentido em obrigar um empregado a se deslocar de casa até o trabalho, demandando dele um tempo absurdo (especialmente nas grandes cidades), além de demandar da empresa mais espaço, gasto com energia elétrica, mobiliário etc., tudo isso em relação a atividades que ele poderia exercer desde casa.

Mas, depois de meses em sistema exclusivo de trabalho remoto, será que ainda mantenho a mesma ideia? Bom, desde sempre, eu carregava a certeza de que não era qualquer pessoa que se adaptaria a esse sistema. Agora, com tanta gente experimentando o trabalho longe da empresa, ficou evidente que realmente não são tantas as pessoas aptas a ficar só em casa. Eu mesmo percebi que isso é algo difícil até para mim. E, veja só, eu não sofro de nenhum dos três males sabotadores do trabalho em casa: TV, cama e geladeira. Quase não vejo TV, então não me sinto tentado a deixar as atividades para me dedicar a ela. Durmo o suficiente para me sentir bem, algo em torno de sete horas e meia. E, definitivamente, não sou de ficar fazendo “boquinhas” entre as refeições principais.

Mas, o que me dificultou então no trabalho remoto? O mesmo que dificultou para muita gente: a falta de um local adequado em casa, que seja totalmente estruturado e permita o desenvolvimento das atividades sem interrupções. Evidentemente, para quem mora sozinho, isso não é problema. Todavia, tendo-se uma mocinha fofa de sete anos de idade em casa, sem escola por conta da pandemia, conseguir se concentrar mais do que quinze minutos sem ouvir um fofo “papai” é quase impossível. E o pior é que, no meu caso, concentração sempre foi algo absolutamente necessário para eu conseguir uma boa produtividade. No geral, é difícil para as outras pessoas que estão em sua casa entender que, das oito às dezoito, você está trabalhando e ponto final.

Para mim, esse foi o maior desafio. Mas, para outras pessoas, surgiram dificuldades diversas. Além dos três sabotadores (TV, cama e geladeira), muita gente sentiu falta da companhia dos colegas. Ficar em casa com a família é um sonho, só que todo mundo precisa de relações sociais diversificadas, algo que ficou mais difícil não apenas pelo trabalho remoto, mas também pelas restrições da pandemia. Isso não me pegou tanto, pois já era acostumado a trabalhar sozinho em uma sala o dia todo, com pouco contato. Acontece que tem gente que trabalha em grupo, que interage com os colegas o tempo todo e, nesse caso, ficar isolado em casa todos os dias, a semana toda, não é algo fácil. Sem contar que, assim como eu não tenho o escritório que desejaria ter em casa, grande parte das pessoas também não tem recursos adequados para exercer as atividades diretamente do lar.

Tem outro lado. No meu caso, apesar das interrupções da minha pequena fofura, eu tenho em casa uma ilha de paz. Meu lar realmente é um muito sossegado, não se grita, não há clima ruim, enfim, é agradável de se estar lá. Porém, há muita gente que não tem essa benção e vive em lares complicados. Não falo da questão física, mas das relações existentes em casa, das pessoas com as quais se compartilha a vida íntima, do clima “ruim” o tempo todo e por aí vai. Em resumo, para muita gente, sair de casa para ir trabalhar é o momento de “desanuviar”.

Isso significa que mudei minha concepção sobre o trabalho remoto? Não. Como eu disse, sempre entendi que ele não era para todos. Também sempre fui alguém mais ao centro do que às extremidades. Por isso, continuo acreditando no teletrabalho como algo bem mais positivo do que negativo. É preciso apenas fazer ponderações e ter bom senso: a) não obrigar todos os empregados a trabalhar de casa, possibilitando o comparecimento à empresa para quem quiser; b) permitir, a quem assim desejar, que fique em teletrabalho apenas durante parte da semana; c) possibilitar recursos materiais àqueles que não os tiverem, para que possam trabalhar remotamente com as mesmas ferramentas que teria na empresa.

O trabalho remoto é uma realidade sem volta. É bom, ajuda na economia em geral e também auxilia aqueles que, hoje, gastam muito tempo em deslocamentos necessários. Só precisamos aprimorar esse sistema e torná-lo uma opção para quem se sentir bem nele.  

*Escritor e Juiz Federal
www.dedodeprosa.com

 
 
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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