17/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 17/12/2020 às 08h00min

Sonda

IVONE ASSIS
Quem não se lembra da pequena Eldorado Paulista? Município próximo a Sorocaba, que ganhou repercussão em 2018, por ser o lugar onde viveu o atual Presidente da República. Mas, um ano antes, em 2017, Eldorado havia se destacado nas mídias, graças à “proibição” de se morrer nos finais de semana. À época, a Prefeitura se viu no direito de vetar as horas extras dos dois servidores públicos únicos (pai e filho), que atendiam na função de coveiros, na cidade. Indignados com a estupidez pública, fixaram um comunicado no portão do cemitério dizendo: "deixem para morrer de segunda a sexta-feira, das 7 às 17 horas", porque os coveiros estariam em recesso.

A administração pública municipal se justificou. Decretou revezamento, e assegurou que, graças ao pequeno tamanho da cidade, as mortes são raras, inclusive: "desde que ele [Willian, o coveiro] fez a postagem, não morreu ninguém", como se a morte tivesse entendido o recado.

Willian, que deu o caso por encerrado, após entendimento com a administração, não deixou por menos, e fez questão de esclarecer ao público sobre o plantão 24 horas, para enterros, afixando novo cartaz (digital): "[...] se você quiser morrer em sábados, domingos e feriados, saiba que estamos lá esperando a todos".

Mas, nem só de enterros é feita a pequena Eldorado. Entre as décadas de 1870 e 1920, quando o lugar ainda se chamava Xiririca, viveu por lá a poetisa Francisca Júlia da Silva. Além de colaboradora no Correio Paulistano e no Diário Popular, em um tempo que mulher praticamente inexistia na literatura, sobretudo no Brasil, a ponto de fazer com que João Ribeiro se ridicularizasse em intrigas com Raimundo Correia. Resolvida as pendências, o que muito me lembrou o “diz que me diz” do coveiro, João Ribeiro se esforçou em viabilizar a publicação da primeira obra de Francisca Júlia, “Mármores” (1895), cujas 145 páginas levam a chancela, no extenso prefácio, de João Ribeiro, o qual equipara, em vantagem, a autora a “Raymundo Corrêa, Olavo Bilac e Alberto de Oliveira”. O próprio Bilac, mais tarde, rende elogios à escrita de Francisca Júlia, declarando que ela apresenta uma língua portuguesa remoçada, límpida e sem fricotes.

Com poetisa tão benquista, não poderia deixar de recitar um poema seu. Poderia aludir vários, de profunda reflexão, como é o caso de “Paizagem”, lembrem-se, estamos com uma língua portuguesa de dois séculos anteriores, que diz: “Dorme sob o silencio o parque. Com descanço, / Aos haustos, aspirando o finíssimo extracto / Que evapora a verdura e que deleita o olfacto, / Pelas alas sem fim das arvores avanço. / Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstracto / Em scismas, tristemente, um alvissimo ganço / Escorrega de manso, escorrega de manso / Pelo claro crystal do límpido regato [...]”. Porém, opto por mencionar “Em sonda”, e desde já, peço licença para “remoçar” a língua portuguesa, a fim de obter melhor compreensão do poema: “Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda, / A boa espiã... Em cima, estende-se a folhagem / Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda, / Com a sua noturna e amorosa bafagem. // Um luar mortiço banha a floresta de Sonda, / Desde a copa da faia à esplêndida pastagem; /E o ofidiano escondido, – olhos abertos, sonda... / Vai passando, tranquilo, um búfalo selvagem / Segue o búfalo, só... mas suspende-lhe o passo / O ofidiano cruel, que o ataca de repente, / E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço. / Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta; / Mas tomba de cansaço e morre... Tristemente / No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta...”.

Basta olharmos em nosso entorno, para notar quanta cumplicidade, todos os dias, oculta luas e silencia florestas, sob o efeito do veneno que sonda.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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