05/12/2020 às 21h17min - Atualizada em 05/12/2020 às 21h17min

Vestidas de Brechó

Há 20 anos eu ouvi falar de Brechó, vi um documentário sobre pessoas que batiam perna nas lojas de Londres e Nova York atrás de peças de roupas únicas, muitas vezes excêntricas e extravagantes. Em alguns desses lugares se encontravam exemplares exclusivos e que custavam uma pequena fortuna, no entanto, em outras lojas, bolsas, sapatos e casacos de pele de marcas famosas estavam disponíveis por uma pechincha. Depois desse vídeo minha vida nunca mais foi a mesma, pensava naqueles locais com aspecto vintage e sempre me decepcionava quando via os brechós da cidade, normalmente com roupas de mal gosto e desgastadas.

Acompanhando ao longo dos anos a evolução das lojas de segunda mão. Posso dizer que não só os estabelecimentos locais foram se adequando à nova tendência, bem como os produtos, atendimento e a visão daqueles que sempre viam com certo preconceito essa modalidade que mudou muito. A ideia de sustentabilidade na moda vem se firmando com a ajuda de personalidades e blogueiros, afinal, quem não se lembra da lojinha do Desapega da Fernanda Paes Leme, programa no qual ela invadia o closet dos famosos para mostrar o quanto eles têm e não usam, bem como para fazer garimpos de peças únicas e com valor sentimental afim de arrecadar dinheiro para instituições não governamentais.

Logo pessoas comuns, amantes da moda, aderiram à ideia e começaram a colocar suas próprias roupas à venda, ampliando para a venda das roupas de amigos, dos filhos e kabum um novo mercado se estabeleceu, com ideal claro não só de fazer dinheiro, mas de reduzir o consumo desenfreado e sem sentido.

Mas se você pensa que é fácil administrar um negócio desses, se engana. Afinal, lidar com peças de segunda mão exige cuidados, já que os compradores não buscam apenas preço, mas principalmente qualidade. Além disso, precisa ter tato ao falar para os “fornecedores” que determinadas peças não se encaixam nos critérios de venda. As lojas, sejam grandes ou pequenas, contam com o olhar minucioso de curadores que avaliam o desgaste, estilo, caimento e possibilidade de venda, bem como o valor e o percentual que será repassado ao dono original. 

2020 foi, decididamente, um ano impactante para essa modalidade. Muitos microempresários aproveitaram a pandemia e essa mudança de pensamento para estruturarem seu negócio, como é o caso da Carol Portilho, dona do “Vestidas de Brechó”, minha loja queridinha de garimpos no Instagram (@vestidasdebrecho): “Em 2015, eu comecei um trabalho de desapegos das minhas roupas. Tinha muitas, e percebi que não era necessário ter esse volume grande de peças, sendo que não usava nem 20% do que eu tinha. Resolvi então desapegar, além te ter doado muita coisa. Acabou ficando uma mala cheia de roupas ainda, que ficou guardada e esse ano resolvi estruturar o brechó como um negócio de fato. Roupa, se bem cuidada, não perde. E por que guardar peças, sendo que elas podem circular por outros armários, não é mesmo? O lance de consumo está cada vez mais consciente, tanto de quem compra, como de quem fabrica. As empresas têm repensado em seus processos de produção, com foco na sustentabilidade, nas pessoas, e os consumidores estão deixando um pouco de lado essa compra por impulso ou até mesmo sem necessidade. Acredito que o mercado de brechós tem essa pegada, de construir uma mente mais consciente nas pessoas sobre consumo, sobre reutilizar peças, comprar peças usadas em perfeitas condições. Usada não é sinônimo de velho, pelo contrário. Você consegue garimpar peças maravilhosas em brechós que têm esse propósito de negócio. Sim, o brechó é um negócio, não é um bico.”

Além da moda sustentável para adultos, muitas mães viram nessa oportunidade a possibilidade de uma renda extra ao desapegar das roupas dos pequenos. Afinal, eita molecada que cresce igual bambu e perde roupa. Com isso, muitas lojas estão se especializando, como é o caso da “Cresci e perdi” que trabalha exclusivamente com peças infantis.

Não esquecendo da importância de doar, os brechós muitas vezes têm um setor destinado apenas a essa finalidade, separando peças inviáveis à venda para doação. Isso não significa que peças doadas estão em péssimo estado, apenas que possivelmente não terão a saída esperada, sem contar que nutrir em nós esse espírito de doação, também é fundamental.
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