04/12/2020 às 12h09min - Atualizada em 04/12/2020 às 12h09min

João, o herói

Ana Maria Coelho Carvalho
Esta crônica é a continuidade da saga do João, aquele amigo que perdeu o voo na viagem para o Havaí. Perdeu e de uma forma complicada, pois existem meios simples de se perder um voo. Por exemplo, como aconteceu com uma conhecida, que voltava sozinha de Porto Alegre. Na escala em São Paulo, estava tão cansada que dormiu no saguão de espera. Quando acordou, o avião já tinha partido (imaginem o susto e o desespero).

Voltando ao João, ele não foi para o Japão, como desejava. Fomos, numa turma grande, para Arraial da Ajuda, na Bahia. Certo dia, por volta das 19h, o João foi protagonista de uma cena inédita. No salão superior do hotel, o João pajeava o Benício, meu netinho de um ano e meio, carinhosamente chamado de "Ligeirinho". O pai estava esbaforido de correr atrás e o João se ofereceu para ajudar. Ficou apoiando o Benício, que subia e descia sem parar a escada de madeira que unia os dois andares. Estava eu concentrada, jogando xadrez com um filho, quando ouvi um baque ensurdecedor atrás da minha cadeira, um grito de adulto e um berro de criança. Olhei assustada e vi o João estirado na horizontal, de barriga para baixo, na beira da escada. Debaixo dele, amassadinho, estava o Benício, só com as perninhas de fora. A turma toda foi acudir. Puxei o Benício e levei um bom tempo para acalmá-lo. Outros levantaram o João, que ficou um pouco tonto e sem ar. Quando recuperou a fala, explicou que o Benício voltou de repente, correndo em direção à escada. Como não ia conseguir segurá-lo, deu um mergulho para frente, tentando ficar de comprido entre ele e a escada, para impedir que caísse. Com isso, o Benício não caiu na escada, mas foi amassado.

Passado o susto, todos cumprimentaram o João pelo ato heroico. Ele foi jogar sinuca e o Benício ficou mais quietinho (coitado, não entendeu nada). No dia seguinte, a Maria, esposa do João, contou, com os olhos azuis marejados de preocupação, que o João passou a noite sentindo dores, parecia que tinha quebrado a mão. Foi levado para o hospital e estava mesmo com três dedos quebrados. Voltou com a mão enfaixada e uma tala no braço.

Minha norinha tirou fotos do João com o Benício, para documentar no Facebook. Olhando a cena, não pude deixar de pensar no "Dom Casmurro", de Machado de Assis. O livro conta a história de Bentinho, que se remoía em dúvidas sobre a fidelidade de Capitu, sua esposa (aquela que tinha os olhos de ressaca, olhos de cigana oblíqua e dissimulada). Um clássico da literatura que deixou para sempre o mistério da paternidade de Ezequiel, o filho deles. Relacionando com a cena, ficará para sempre a dúvida se o ato do João foi um ato de heroísmo ou de loucura. Eu, mesmo sendo avó extremada, em sã consciência jamais daria um mergulho mortal daqueles.

Em Uberlândia, como a mão não sarava, o João foi ao médico. Descobriu que estava com osteoporose. Começou então a fazer tratamento, feliz por ter descoberto, agradecendo por ter dado o mergulho mortal (penso que existem formas mais normais de se descobrir osteoporose). O pior é que quando se formou o calo ósseo e os dedos quebrados sararam, o João esqueceu-se, levantou as duas mãos entrelaçadas para cima e "estalou" os dedos, como sempre gostava de fazer. Os dedos quebraram novamente, mas o João continuou feliz. Não pude deixar de pensar em outro clássico da literatura,"Pollyanna", de Eleanor H. Porter. O livro conta a história de uma menina que sempre estava feliz. Ela jogava o "jogo do contente", que é simplesmente uma visão otimista, uma forma de encontrar algo bom em qualquer situação, de ver a vida de maneira mais alegre.

Com isso, concluí que o João não é louco, nem herói, e sim um adepto do "jogo do contente". Em tudo, encontra uma forma de ser feliz.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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