04/12/2020 às 08h26min - Atualizada em 04/12/2020 às 08h26min

Despertador

William Stutz
Tem coisa mais aborrecida do que toque de despertador? Antigamente, usavam-se aqueles relógios imensos à corda, com duas conchas de inox no topo, que faziam um escândalo de acordar quarteirão, pior do que alarme de carro ou casa disparado. Já repararam que vivemos a época inconsciente de “Pedro e o Lobo”? Não aquele conto de Sergei Prokofiev que apresenta às crianças os sons dos instrumentos de uma orquestra, mas aquele Pedro, pastor de ovelhas ou cabras que, entediado, gritava que havia lobo atacando rebanho e era mentira até que um dia aconteceu. Bom, acredito que todo mundo que tem mais de 12 anos conhece a história.

É tanto alarme de casa e carro que dispara sem motivo algum, que ninguém mais nem acode. Deixa-se tocar indefinidamente. Isso quando ainda alguém não reclama: 

- Ninguém vai desligar esse troço!

Mas os despertadores de relógios à corda tinham uma, ou melhor, duas vantagens. A primeira, no meu caso, era que o tic-tac se fazia tão alto que nem dormir conseguia, assim, e aí vai a segunda “vantagem”, quando dava o primeiro trimmm da manhã já estava em alerta para mal-humorado dar-lhe uma bifa no botão de desligar.

Depois vieram os relógios elétricos com seus números que viravam como folhas de livro, precursores dos digitais. Por mais incrível que possa parecer emitiam estranho e quase imperceptível som que só os mais atentos o percebiam, meu caso. Tenho ouvido de tísico, sensibilidade auditiva totalmente fora do normal, canina. Sufoco. Portanto, se for sussurrar segredo perto de mim cuidado, posso estar, sem querer, na escuta. 

Em nossa primeira casa, uma meia-água alugada no Martins, perto do melhor “semolina de tudo” que já provei, servido com capricho no Bar do Bené, a acuidade exagerada era um estorvo. Tínhamos que desligar a geladeira à noite, senão, dormir que é bom nem por decreto. Já morou perto de transformador de luz em poste ou linha de transmissão em alta tensão, aquelas torres horrorosas que enfeiam tudo por onde passam? Nem queiram. Ambos emitem um zumbido que, acredito, podem levar à loucura bichos e gente como eu.

Agora, chegou a vez dos celulares despertadores, com sua infinidade de toques. Com estes me dei bem, em termos, mas absolutamente silenciosos são. Pode-se, inclusive, simplesmente desligá-los que, na hora desejada, tocarão. Quer acordar de mansinho com Adagietto de Mahler? Tem o toque. Quer sertanejo universitário? Este eu não recomendo, pois o resto dia seu humor ficará que nem a música, péssimo, mas está lá nas opções. Quer um rock, house music, trance, dubstep, mixtape, remix, bootlog. Do baião a música gospel ou sacra?

Não falta nada nos modernos I-qualquer coisa. Minto, falta bom senso. Por que cargas d’água criaram a tal da “Soneca” depois de te despertar? Qual o sentido do recurso? Quando acordamos filhos para escola, o famoso “mais cinco minutos” é praxe. Já com o celular, não. Passa-se a primeira soneca, depois vem outra, outra, e, quando se dá conta, perdeu-se a hora, a portaria do colégio fechou, o ônibus passou.

Depois de um mês ou dois, o toque escolhido torna-se tão insuportável, mas tão chato, que, se por mal dos pecados você ouvir a tal música em outro lugar, tipo rádio ou restaurante, você é capaz de ter uma convulsão, brigar com a namorada ou bater a cabeça na parede. Será que inventarão um despertador que, sem barulho, lhe tire da cama? Um balde de água fria talvez. Está servido?

 
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