03/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 03/12/2020 às 08h00min

No olho do furacão

CLÁUDIO DI MAURO

Na semana em que se encerram as divulgações dos dados eleitorais, aparecem análises de todos os tipos e de todas as procedências. Há os que desejam mostrar que a direita teve um baque muito forte. Outros querem mostrar que as esquerdas estão enterradas. Nada disso, me parece verdade. Não sou “dono da verdade”, mas tenho algumas reflexões construídas com sobriedade e cuidados.
 
Se tivermos como referência as eleições de 2018, quando Bolsonaro e seus aliados “passaram o rodo”, elegendo o Presidente da República, grande parte dos Senadores e dos Deputados Federais, além de governadores, podemos considerar que nas eleições de 2020 tiveram um “baque” significativo.
 
Bolsonaro está sem filiação partidária e em diversas cidades das eleições municipais precisou ser escondido, sem demonstrar apoio para candidatos que em 2018 eram seus aliados. O melhor exemplo ficou por conta de Celso Russomano na capital paulista. Para vencer sobre a disputa contra o Psol, Boulos, o candidato e Prefeito reeleito o tucano Bruno Covas, fez questão de manter distância em relação a Bolsonaro.
 
No Rio de Janeiro Marcelo Crivella não teve como se esconder de Bolsonaro e da Igreja Universal de Edir Macedo, a derrota foi acachapante.  Em Fortaleza, onde há um esboço da formação de uma aliança de “centro esquerda” o candidato apoiado por Bolsonaro foi solenemente derrotado. Enfim, não restou dúvidas de que a onda bolsonarista está em franca queda. Assim é que não se aconselha a companhia de Bolsonaro.
 
É indispensável o reconhecimento de que os eleitores que votaram em Bolsonaro não migrarão imediatamente para os partidos das esquerdas. Boa parte deles seguirá por opções neoliberais, tidas como “mais equilibradas”. Assim é que seria normal a migração para PSDB, PMDB, DEM e outras alternativas desse campo ideológico. Imaginar que os eleitores migrariam do bolsonarismo para as esquerdas é demonstração de ingenuidade.
 
A análise sobre o PSOL merece destaque. Tanto em Belém com a importante vitória de Edmilson Rodrigues, quanto em São Paulo com a excelente performance de Guilherme Boulos, houve no II Turno um ensaio de articulação entre os partidos das esquerdas. O PT, o PC do B e o PSOL construíram uma unidade impressionante. Ganhou em Belém e em São Paulo teve um crescimento e uma votação próxima da obtida por Haddad no II Turno da eleição presidencial. Significa dizer que na capital paulista a união das esquerdas, com mobilização lhes proporciona a possibilidade de 40% dos votos.
 
O PSOL teve grande destaque em Belém e São Paulo-Capital, contando com a inteira dedicação das forças petistas e outros partidos da “centro esquerda”.  Assim é que PT, PSOL e PCdoB precisam dialogar com maturidade se desejarem obter sucesso eleitoral, construindo um “núcleo duro” para as alianças futuras.
A extraordinária votação obtida por Manuela d’Ávila em Porto Alegre merece ser valorizada. No âmbito nacional a capilaridade do PT deverá ser compreendida e acolhida. Afinal são cerca de 180 Prefeituras sob esse comando e são cerca de 2.800 vereadores distribuídos pelos municípios brasileiros.
 
Não é possível ignorar a importância dessa força política de um partido que mais do que filiados, possui militantes. As vitórias de Diadema e Mauá na Região Metropolitana de São Paulo não são de pequena monta. Bem como está valorizada a chegada de duas mulheres em Prefeituras de Minas Gerais, nos municípios de Contagem e Juiz de Fora.
 
Margarida Salomão em Juiz de Fora chegou com a montagem de sua equipe de transição formada por equilíbrio entre homens e mulheres, contando com as participações de negros e negras. Significativos avanços na construção da democracia com valorização das equidades sociais.
 
O município de Recife tem que ser analisado com mais cuidados. Lá disputaram a excelente Marilia Arraes pelo PT, contra o candidato do PSB da família João Campos. São duas forças, dois primos que estiveram em posições opostas em disputas presidenciais.
 
Enquanto Marília apoiava a candidata Dilma Roussef, a família Campos acompanhou a ex-senadora Marina Silva definindo apoio para Aécio Neves. Essa fissura tem que ser amalgamada com muitos cuidados e, no meu entendimento, a figura do pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva é melhor interlocutor para buscar a construção nessas relações.
 
Cuidados iguais merece o Ceará com a capital Fortaleza. Ali ficou demonstrada a manutenção do controle da família de Ciro Gomes. Claro, no II Turno, contando com apoio de todas as forças das esquerdas, o que inclui o PT. Nesse caso, ninguém viajou para Paris, mas dedicou tempo e esforço para derrotar o bolsonarismo de mais um ensaio, trazendo candidato das forças de segurança, pelo partido do vice-presidente da República, general Mourão. Mais uma vez ficou a decisão de que os militares devem voltar para os quartéis.
 
Estas eleições de 2020 deixaram claro que as esquerdas poderão se renovar para construir as pretendidas Esquerdas do século XXI, valorizando a articulação com a juventude brasileira. Devem dedicar mais atenção para as lutas identitárias dos negros ou pretos, das mulheres, dos LGBTs+, dos idosos, dos indígenas, ou seja, das populações subalternas, como reconheceu Florestan Fernandes.
 
A política partidária no Brasil está ganhando “novas caras” e novo perfil. Com muitos cuidados, as análises do resultado das eleições de 2020 precisarão ser realizadas em condições de menor turbulência. Para as esquerdas, não há tempo a perder, apesar do olho do furacão.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 

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