21/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 21/11/2020 às 08h00min

Adversários ou inimigos?

ALEXANDRE HENRY
Na semana que se passou, o ex-deputado federal Ricardo Tripoli, de São Paulo, foi a um evento no Sindicato Nacional dos Aposentados. Durante o evento, referindo-se a Guilherme Boulos, que disputa a eleição para a prefeitura paulistana contra Bruno Covas, Tripoli afirmou sobre Boulos: “Nós temos um adversário extremamente agressivo, quem assistiu o debate ontem viu. Ele é o cara que mata a mãe para ir no baile de órfãos. Mata a mãe para ir ao baile de órfãos, para poder entrar. Imaginam a agressividade que esse sujeito tem”.

Para os dias atuais, isso nem poderia ser considerada uma fala muito agressiva, já que o lugar comum hoje é humilhar, pisar e aniquilar quem não está do mesmo lado. Ainda assim, o prefeito Bruno Covas ligou para seu concorrente Guilherme Boulos e pediu desculpas pela fala de Tripoli. Em uma nota, a campanha de Covas afirmou: “Atitudes como essa não contribuem para o processo democrático. O prefeito Bruno Covas já se desculpou, pessoalmente, com Boulos e espera que as campanhas, seus aliados e militantes mantenham o respeito e o bom nível que tem ditado o tom da campanha até aqui”.

Por um momento, tive a sensação de estar revivendo uma época em que o lugar comum era disputar de forma arraigada campanhas eleitorais, mas quase sempre respeitando a linha do bom senso e do respeito mútuo. É certo que jogadas sujas, atos infames e até mesmo violentos também aconteciam. Porém, não eram a regra e, sim, a exceção. No geral, quem estava do outro lado era considerado um concorrente, não um inimigo.

Se nós formos ao dicionário, embora lá se encontre a palavra “inimigo” como sinônimo de adversário, a definição desta última palavra vai por outro caminho: “que ou o que combate em (luta, competição etc.); antagonista, contendor; que ou o que, em debate, discussão etc.” Já o termo “inimigo” recebe a seguinte definição: “indivíduo que tem ódio a outro, ou que lhe é antagônico, hostil; em especial, aquele que se empenha em destruir outro, ou causar-lhe danos, em desacreditá-lo, em afastá-lo da posição que ocupa”.

Notou a diferença? Seu inimigo sempre será seu adversário, mas seu adversário não precisa ser seu inimigo. É possível querer vencê-lo, seja em uma eleição política, na disputa por um cargo na empresa, na partida de futebol ou em qualquer outra situação de competição, sem querer destruí-lo, sem cultivar contra ele um sentimento de ódio. Quando se entra em campo, qualquer que seja ele, para uma disputa baseada no respeito mútuo, uma disputa ao mesmo tempo aguerrida e leal, o resultado final será um vencedor com mais legitimidade, mais respeito do perdedor e de todos os demais envolvidos naquela peleja. O processo e tudo ao redor ganham com isso e, no final das contas, o mundo fica melhor.

Infelizmente, essa postura se tornou cada vez mais rara. Antigamente, o sujeito perdia a eleição, ia lá, reconhecia a vitória do outro e, de forma amistosa, dizia que, da próxima, as coisas não seriam tão fáceis. Nas peladas país adentro, sempre foram comuns jogos duríssimos, finalizados com uma rodada de cerveja (ou de pinga mesmo) entre todos. Como regra, qualquer disputa até podia ter ataques duros, mas, como eu já disse, sem cruzar a linha do ódio e do desejo de aniquilação do outro.

Com a chegada das redes sociais e o crescimento da polarização social, especialmente nos campos político e comportamental, parece que o outro lado não mais tem adversários e, sim, inimigos. O que temos visto nos últimos anos é o crescimento da ideia de que, em qualquer disputa, vale tudo para vencer: humilhação, xingamentos, desprezo, desejos de males para o inimigo e por aí vai. Quando o inimigo, que era para ser apenas um adversário, cai na lona e a disputa é encerrada, tem-se então mais prazer na derrota dele do que na própria vitória, prazer esse potencializado por atos e palavras que buscam destruir definitivamente o outro mesmo depois que ele é derrotado.

Isso precisa acabar. O bom combate pressupõe a existência de um concorrente e de atitudes leais, a fim de que a vitória seja alcançada com honra e, principalmente, de forma legítima. Isso vale também para a derrota. Reconhecer as próprias falhas na queda é um passo essencial para um dia se reerguer. Por outro lado, tentar deslegitimar o adversário ou mesmo a disputa em si, especialmente quando o processo transcorreu em relativa normalidade, não é uma atitude digna e serve apenas para cultivar a ideia de que não existem adversários e, sim, somente inimigos que devem ser destruídos a qualquer custo.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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