14/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 14/11/2020 às 08h00min

Google sentiu o peso

ALEXANDRE HENRY
Uma das frases mais repetidas da história recente é a de que não existe almoço grátis: alguém sempre vai pagar a conta. Apesar de a frase ser óbvia, ainda tem gente que acredita que muita coisa na internet não custa nada. Não, não é verdade. Todo serviço que está na rede exige algum tipo de estrutura, como armazenamento, além de sistemas que demandam boas doses de dinheiro para desenvolvimento. Como pouca gente entra na internet para fazer caridade, conclui-se que sempre existe alguma forma de financiamento desses serviços.

As redes sociais descobriram seus caminhos. O Facebook abocanha fatias bilionárias do mercado publicitário mundial. É fato que eles, assim como outros gigantes do mercado, criaram um sistema de anúncios extremamente interessante para quem anuncia, permitindo delimitar a propaganda por área geográfica, por público etc. Antes, a maioria dos meios de divulgação de publicidade até tinha ferramentas para direcionar anúncios para esse ou aquele público, mas era algo não tão preciso. Se você queria fazer um comercial de brinquedos, por exemplo, colocava sua propaganda durante programas infantis. Porém, a precisão não era grande. Com as ferramentas da internet, como as fornecidas pelo Facebook, você coloca filtros e mais filtros que farão seu anúncio atingir exatamente o perfil de cliente que você deseja.

O Twitter também tem esse sistema, assim como o Google com seu onipresente buscador. Quanto ao Instagram, até algum tempo atrás não postava anúncios. Mas, a rede foi crescendo, foi comprada pelo Facebook e, atualmente, é outra mina de ouro para seus donos.

Evidentemente, como já comentei aqui, esse movimento de migração dos anunciantes para a internet foi cruel com os meios de comunicação tradicionais. Televisões, rádios, revistas e jornais entraram em uma crise profunda e só devem sobreviver aqueles que conseguiram, de alguma forma, adaptar-se à nova realidade do mundo da propaganda, hoje concentrado na internet.

Como se vê, nada é de graça. Você usa o Facebook aparentemente sem pagar nada, mas está, na verdade, doando seu tempo e atenção para a rede social, que os vende a um valor bastante considerável para os anunciantes. A mesma coisa acontece com todos. Você utiliza o buscador do Google, que realmente foi um marco na internet ao ser lançado, e recebe não apenas as buscas que desejava, mas também um monte de resultados pagos. Cada provedor de serviços da internet foi criando o seu jeito de “monetizar” o próprio negócio, buscando, de preferência, não cobrar do usuário final dinheiro em espécie, contentando-se com sua atenção e tempo, como já dito, para revendê-los às empresas.

Ocorre que alguns serviços são de difícil “monetização” por meio de anúncios. Por isso mesmo, as empresas rebolam para arrumar meios de mantê-los em oferta. O WhatsApp é um exemplo. O que seus donos fizeram? Simplesmente eliminaram de seus “data centers” o armazenamento de todo o conteúdo que trafega pelo WhatsApp, deixando-o armazenado apenas nos aparelhos dos usuários. Com isso, reduziu absurdamente o custo desse serviço para a empresa. E como ganha dinheiro com ele? Não sei, mas provavelmente há alguma forma de filtragem dos assuntos de cada usuário para direcionar propaganda para ele em outros locais, como Facebook e Instagram, que são do mesmo grupo.

Há casos extremos, porém, que não dava para fazer isso. O Google Fotos é um grande exemplo. Sou fã desse sistema de arquivo de fotos e vídeos, cujos algoritmos de reconhecimento facial são fenomenais. Ainda hoje, o serviço é gratuito: você armazena tudo o que quiser com uma resolução bastante satisfatória e não paga nada. Como o Google mantém esse serviço? Há uma ferramenta nele que permite reconhecer produtos e, com isso, oferecer anúncios. Mas, creio que era muito pouco pelo alto custo do armazenamento de bilhões de fotos e vídeos.

Agora, acabou. Na semana que se passou, o Google comunicou a todos os usuários do seu sistema de fotos que irá passar a cobrar pelo armazenamento que exceder 15 Gb. Quem quiser mais do que isso terá que pagar. Sim, mesmo o gigante da internet sentiu o peso de oferecer um serviço caríssimo para ele e que não podia ser “monetizado” completamente por outros meios que não o pagamento direto pelos usuários. O que isso demonstra? Demonstra, mais uma vez, que a frase está certa: não há almoço de graça na internet. Quando as grandes companhias não conseguem lucrar apenas com a atenção que você dá para elas, o jeito é cobrar de você em dinheiro mesmo.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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