13/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 13/11/2020 às 08h00min

Teia

WILLIAM H STUTZ
Intrigante os sonhos. Não exatamente eles, mas o seu comportamento. Sei bem que a neurociência e a psicanálise se debruçam em autopsiar, desde os tempos de Freud, estes lampejos da memória mais profunda. Tratados e tratamentos foram escritos e prescritos com a intenção de desvendar a química destes estranhos pensares involuntários.

Podem os tais sonhos te impedir de dormir por um certo tempo, se estender demais morremos de tanto acordar. Mas, se cochilar lá vem o “conjunto de ideias e de imagens que se apresentam ao espírito durante o sono”. Definição está do dicionário Priberam. Tá, mas e aqueles que não acreditam nos espíritos? Não sonham? Estranhamente a definição de espírito no próprio dicionário é contraditória. Olhe só: “Espírito: Coisa incognoscível que anima o ser vivo. Entidade sobrenatural. Abanstema, Alma, Espectro, Fantasma”. Confuso, não é? Por via das dúvidas eu acredito sim em espectros, fantasmas e principalmente, com convicção, na existência da alma. Não apenas em anima e animus de Carl Jung “como parte de sua teoria do inconsciente coletivo e onde animus seria o lado masculino inconsciente de uma mulher, e a anima como o lado feminino inconsciente de um homem”. Acredito na alma imortal que, com sua energia, um dia nos levará para a fonte vital de todo universo. Como sabiamente disse o intrépido Carl Sagan: “Somos todos poeira de estrelas.”

Contudo, isso são detalhes que podemos nem levar em conta, pois o que interessa é que sonhamos muito e sempre. Particularmente sonho o tempo todo. Dormindo, acordado, almoçando, conversando. Até na cadeira do dentista, tenso e suando em bicas, sobra tempo para sonhar.

Durante a noite, para amanhecer hoje, tive um sonho louquíssimo de bom. Sonhando dentro do sonho pensei/sonhando. Como aranha, daquelas reluzentes de cafezal, a famosa Trichonephilaclavipes, mais uma dose de informação pouco útil, a não ser que você seja um estudioso dos bichos estranhos como eu, que faz teias imensas as quais às vezes encontramos nas estradas, cruzando-as de lado a lado, pensei em tecer lentamente uma teia neuro-seda-pensativa entorno daquele sonho prazeroso, para quando acordar o encontrar preso e inteiro em minha memória e assim poder saboreá-lo. Tudo ia muito bem. Um nozinho dado aqui, esticava cauteloso até o ponto mais ermo do sonho, fazia uma amarra bem apertada, descia rente a parede do hipocampo, localizado abaixo do córtex cerebral. Esgueirando que nem taruíra (tem gente que chama de labigó) para não ser percebido, deixava outra ponta presa. Cruzava o céu do cérebro e amarrava. Assim foi durante a noite inteira, acho eu. Virou uma tarrafa, um novelo, tão bem trançado que não havia a menor chance de sair nada lá de dentro, nem a mais esperta e brilhante sinapse de minha rede neural. Tarefa realizada, pensei cá comigo.

Quatro e pouco da manhã os pássaros pretos já começaram sua costumeira algazarra. Ô bicharada que anda a acordar cedo! Não sei se por conta da época de namoro, a busca por parceiro/parceira começando mais cedo ou se lá do alto das palmeiras e coqueiros conseguem já avistar o sol querendo nascer e em bocejos apontando para eles, já avisa: ¬-Podem começar a cantoria. O dia já vai chegar.

Semi acordei com sorriso de alegria. Capturei sonho bom. Como de costume já não lembrava dele, mas não tinha mais importância, ele estava bem preso na minha teia imaginária e agora iria acessá-lo para conferir. Sempre que eu quisesse estaria lá para conferir e me trazer o prazer de um bom e revigorante sonho.

No acorda não acorda, fui devagar desembrulhando e desfazendo os nós do emaranhando. Fio por fio, com cuidado especial para não ferir e modificar o enredo tão apreciado. Enfim, uma pequena abertura. Esfreguei as pontas dos nós para tirar o excesso de seda e poder entreabrir aquela pequena janela, espiando lá dentro. Tudo escuro, negrume só. Bom, pensei/sonhei teci tão justo os pontos que nem luz entra. Abri mais um pouco, o breu impenetrável assim ficou. Fui abrindo já aflito, rasguei metade do casulo. Vazio! Fiz o resto em pedaços, nada havia! Totalmente vazio. Desencanto. Acordei arfando e assustado. Olhei o cortinado a rodar sobre a cama levado por leve e fria brisa que vinha da janela aberta. Chovera um pouco à noite. O cheiro de terra molhada denunciava.

Mas e o sonho? Como escapara de tão perfeita armadilha? Teria eu ficado tão ocupado em tecer que esquecera de sonhar? Então passei a noite a tecer um sonho sobre nada? Mas e a sensação de prazer e alegria com o sonhar? Teria sido realmente um sonho?
Nunca vou saber. Tentei “pegar o sol com a mão”. Sonhos só são sonhos quando livres, não aceitam peias, grilhões. Meu grande erro foi acreditar que a majestade dos sonhos pudesse ser guardada em caixas, como memórias, arquivadas para consulta posterior.

Livres como vagalumes ou aves migratórias podem te mostrar maravilhas, mas jamais aprisionados. Viva cada sonho de uma vez, mas nunca os amarre. Outros por ele mesmo serão visitados e assim outros e outros. Nossos sonhos podem ser polinizadores de bondade e esperança e com toda certeza abrirão caminho para mudanças reais, bem cá em nosso viver material. Acima de tudo servirão de ponte para ligação com todo o universo, de onde viemos e para onde um dia, em poeira ou luz/energia, voltaremos.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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