10/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 10/11/2020 às 08h00min

Rita

RAQUEL DUPRAT

No Clube, na beira da piscina e ao redor de crianças pulando na água, ela quase acreditou que o tempo não tivesse passado. E depois também, no alpendre da casa de sua mãe, Rita sentiu novamente o comichão dessa esperança. É que ela carregava consigo itens de sobrevivência: sorriso solto, sapatos sem salto, pulseiras brilhantes, e nenhuma abominação desnecessária.

E sem se abalar pela falta de coerência da vida, gostava mesmo era de contar histórias.

Tantas voltas que essa vida dá e foi justo eu a escolhida para Rita encantar. Ao seu lado, segui noites adentro com os ouvidos afiados pelo tique taquear de suas palavras. Eram tempestuosas as letras de Rita em mim, assim como suas lembranças de quando lavava roupas na antiga fábrica de chocolates Belmonte.

Ela, assim como eu e as outras, começamos cedo a enfrentar a ausência de graça da vida. Suas calças curtas respondiam por si o quanto precisou compreender que, para adoçar a vida alheia, amargaria a própria.

Não havia luz suficiente em seu pequeno quarto da pensão. Não havia luz também em sua imaginação. Até que um dia, escutando a mulher estrangeira que mal compreendia sua língua , sofreu um entendimento. Entendeu sobre a infinidade de tipos e qualidades de vidas, da dor da saudade de uma mãe, da especificidade da loucura da solidão, das muitas formas da beleza humana, mas também sobre os vários tons de mágoas com que ainda teria que se deparar.

Entendeu por fim, que tudo que soubera até aquele momento de nada lhe adiantaria. Assim como um ponto de tricô que se desmancha por descuido, seu entendimento foi uma constatação dos muitos pontos perdidos. E o peso que carregava não lhe dava outra opção. Descobriu que somente partindo, haveria de desalocar de si as ausências tantas que lhe habitavam. E finalmente desenhou os pontos iniciais em seu tricô e se foi.

A dúvida lhe corroía, mas traçando na imaginação o tamanho exato das bordas, foi e se espantou quando viu um novelo muito maior do que presumira. Também se espantou com sua visão estreita sobre as possibilidades.

Anos luz se passaram. E quando viu, aliviada, que as experiências não eram certificações de seu pensamento, ou retrato do seu desejo, sorriu, envelhecida e embasbacada. Sorriu ao ver que as coisas são quase que donas de si mesmas e sorrateiras, vão cedendo lugar para outras coisas, para outras pessoas, pra outras cores, e principalmente, vão se modificando a partir de novos encontros.

Rita deixou que o rio corresse, que a faca lhe cortasse, que a chuva causasse frio, que o calor depois lhe aquecesse e deixou que o som da máquina de escrever lhe provocasse. Rita escreveu um romance. Rita se tornou somelier. Rita começou a cantar. Deixou que a vida lhe incorresse riscos. E isso lhe causou um estrondo e fez com que provasse um gosto amargo.

E Rita desejou voltar a ser o pássaro de asa quebrada que Constância, sua mãe, criara. Assim, foi preciso ir embora por muito, muito tempo para que encontrasse, na volta, a asa que tanto precisava. E ela se descabelou quando, ao voltar, viu tudo fora de lugar... tantas escolhas a fazer pelo mundo para acabar aqui e com tudo ainda quebrado e fora do lugar? pensou...

E ela penou, se debateu, arrependeu, mas entendeu de novo. Entendeu que lugares são ilusões de possibilidades, combinações a serem treinadas por anos a fio e que fora de lugar estava sua própria órbita.

E Rita rodopiou milhões de vezes em torno do armário da cozinha. E constatou que nada estava exatamente como deixara, a não ser a caixa de fósforos que se acabara. Entendeu que a causa de tudo teria sido sua volta, e que inclusive, a lareira que ela tanto amava, continuava a mesma. Rita aprendeu o arrazoar das coisas e hoje, trata dos patos na lagoa em frente a Praça como fossem seus filhos.

Rita é, na verdade, todas as vezes que a gente precisa de rota. Rita sai de perto de mim para distâncias profundas sempre que corro risco de me afogar. Nosso encontro ainda gera histórias. E nossas histórias é que geraram nosso encontro. Somos rodopios de vida.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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