27/10/2020 às 08h30min - Atualizada em 27/10/2020 às 08h30min

“A verdade nua e crua”: O ideal de padronização dos corpos.

JÚLIA CAROLINA

Falar de corpos sempre foi “tabu”. Corpos nus, corpos marginalizados, corpos não padronizados, corpos machucados, corpos “crus e em carne viva”. Não é novidade que o “corpo sofre”, opressão, humilhação, dominação, tortura, censura, fetichização. São múltiplas as formas de apropriação e sofrimento deste corpo ao transcender da história.

A verdade “nua e crua” é que no fim das contas todo mundo sofre, ninguém realmente aprova a desumanização em massa tão explicitamente vigente. Todavia é inegável que alguns sofrem mais, e outros menos. Existe uma linha tênue que nos diferencia uns dos outros, onde a questão central não diz respeito a matéria em si, - somos todos “ nus e crus em carne viva”, mas sim de uma estrutura social. Uma estrutura ideal “humana” e pouco humanizada.

Ao exemplificar-nos a questão, deparamos com corpos separados por: classe, gênero, cor, raça, etnia, condição física, intelectual, orientação sexual, crença ou descrença, sendo os com deficiência os menos representativos. 

Algumas das possíveis razões para essa falta de representatividade podem atribuir a construção de crenças e valores, socialmente pré-estabelecidos acerca da pessoa com deficiência. Esse ideal extremamente capacitista (ainda em desconstrução) de que pessoas com deficiência são “incapazes”, acentuada pela privação de direitos, incluindo o de pouco contato com o próprio corpo.

Outro fator extremamente relevante a se levar em conta é a falta de representatividade externa, e considerável nas mídias e veículos de comunicação de modo geral. Afinal, são eles os responsáveis por ditar o que vem a ser um corpo “bonito” ou “feio”, aceitável ou não. É função da publicidade “cultuar o belo” e destacar a funcionalidade. Mas e quando os corpos têm beleza e não funcionalidade?

Quantas pessoas com deficiência física ou intelectual temos nas revistas? Quantas temos nos comerciais? Nas novelas? Quantas como modelos ou coisa parecida?  

O fato é que essa é a lei elitista, essa é a estrutura vigente de “padronização” dos corpos. Uma estrutura inabalável, onde existe aqueles que por intermédio de seus privilégios sociais conseguem existir, enquanto outros, em contra partida, “sobrevivem”, tentando descobrir por conta própria a beleza escondida dentro de seus corpos não midiáticos.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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