16/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 16/10/2020 às 08h00min

Mim e Eu

WILLIAM H STUTZ
Afinal, quem sou EU?  Vamos lá, este simples veterinário, bem próximo de um analfabeto funcional, resolve se aventurar gramática afora ou adentro. Repito, quem, por Tutatis, sou EU? Ora, gramaticalmente EU não passo de um pronome pessoal. E ainda, conta o fabuloso dicionário Priberam que: “No português distinguem-se três pessoas: a primeira é a que fala: eu escrevo; a segunda, a pessoa a quem se fala: tu escreves; a terceira, a pessoa de quem se fala: ele e ela escrevem. Como a forma em que um pronome designa uma só pessoa (...)”

E “MIM” quem é? Novamente recorro ao pai dos burros, o mestre Priberam. Bem que poderia ser o Aurélio, Michaelis ou o Houaiss, pois apesar dos nomes pouco chegados ao latim, são os melhores. O segundo foi criado pela lexicógrafa alemã Henriette Michaelis e terceiro não sei mesmo, mas não é um Silva ou Oliveira da vida.

Voltando a MIM: Variação do pronome eu, sempre que é precedido de preposição (ex.: a mim ninguém me dá nada; contra mim falo; ele chegou antes de mim; o assunto ficou entre mim e eles; eles souberam da notícia por mim; foi simpático o que ela disse sobre mim; isso é para mim?).

Se tiverem paciência peço desculpas, mas, por favor, acompanhem comigo: Para saber quem é o sujeito que pratica a ação, perguntamos: Quem vai fazer? Resposta: EU. Então, o correto é: Para EU fazer, ou seja, mim não faz nada de nada, mas EU faço. Certo? Pode ser na gramática, mas na prática, na vida, nem o MIM nem EU fazemos quase nada. 

Vivo a escutar toda hora, eu faço, eu aconteço, eu isso, eu aquilo. Vem comigo já dizia alguém. Eu posso até fazer, quando ajo sozinho, solitário em alguma empreitada onde não dependo de ninguém para resolver um imbróglio. Sim, aí posso muito bem usar a 1ª pessoa do singular do presente indicativo do verbo e agir. Ponto final. Modéstia às favas, apesar de besta.

Mas não é isso que vejo no meu dia a dia. O uso abusivo do “EU” chega a incomodar. Primeiro que, na maioria das vezes, não traduz a verdade e ainda em comunidade, em um grupo seja ele qual for, o EU e o MIM não fazem nada... SOZINHOS!

Aí deve entrar em cena o ator principal de nossos ciclos de trabalho ou sociais, um tal de NÓS. Sabe quem é o NÓS? É um pronome pessoal, sujeito correspondente a primeira pessoa do plural. Melhor ainda, refere-se às pessoas do discurso, ou seja, aos agentes envolvidos no enunciado. O dicionário Priberam é F... fogo. Olhe como lapida isso: “Pronome usado como plural majestático ou plural de modéstia, em vez de eu, muitas vezes com inicial maiúscula”.

Simplesmente sublime: “Majestático, Plural de Modéstia (...)!

Que mundinho é esse onde o EU acha que vale mais do que NÓS?

Quanta solidão, frustração, tristeza, sentimento profundo de inferioridade enrustida em gente da turma do EU. Meus amigos, minhas amigas, o EU é como uma segunda-feira de ressaca, amargo e difícil de carregar. É como um feriado em um domingo, bala com papel, como o isolamento em pandemia. Um moribundo em enfermaria sem um conhecido sequer.

 Quem pensa EU afasta o NÓS de sua vida. Vive à margem de si mesmo, querendo como o passarinho feio cantado na música “Lenda do Pégaso”, que até hoje não sei se é de Jorge Mautner ou de Moraes Moreira ou quem sabe, DELES! Em trecho diz a canção nós diz:  “(...) Aí então Deus chegou e disse: Pegue as mágoas/ Pegue as mágoas e apague-as, tenha o orgulho das águias/
Deus disse ainda: É tudo azul, e o passarinho feio/ Virou o cavalo voador, esse tal de Pégaso.”

Eita, essa vida onde o EU vale tão pouco! “Viva EU Viva TU, Viva o Rabo do Tatu” (GRAÇA LIMA, Cristina Villaça).

Não sei se fui claro na gramática. Nem era minha intenção. Só quis colocar no papel um sentimento represado que varia de antipatia a pena, dó.

Se quiserem malhar o Judas que o façam, não vou ficar para apanhar a primeira pedra. EU hein ... ou... NÓS hein!

Ótimo fim de semana para todos NÓS!


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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