10/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 10/10/2020 às 08h00min

A farinha nossa de cada dia

ALEXANDRE HENRY
O ditado é tão popular no Brasil que virou até música cantada por Bezerra da Silva: “Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Este é um velho ditado do tempo do cativeiro”. A frase, porém, tem valor universal e tem sido, nos últimos tempos, utilizada com muita esperteza por quem encontrou no populismo nacionalista um terreno fértil para ganhar votos e eleições.

Vamos aos fatos.

O século XX foi marcado, após a tragédia da 2ª Guerra Mundial, por um movimento de redução das fronteiras entre os países, de formação de blocos econômicos e políticos e, principalmente, por uma expansão internacional da produção e do comércio. O maior exemplo quanto à questão das fronteiras é a União Europeia. Estive lá em 1997, como mochileiro, e ainda testemunhei a dificuldade que era ter que fazer câmbio de dinheiro cada vez que se cruzava uma fronteira, embora o controle migratório interno fosse pequeno. Hoje, a Europa vive uma realidade muito diferente, sem fronteiras e com uma só moeda. Essa experiência acabou estimulando outras nações, como é o caso do combalido Mercosul, em que você visita vários países apenas com sua carteira de identidade, por exemplo.

Na parte do comércio, fomos mais além. Hoje, há produtos que são desenvolvidos em laboratórios americanos, montados na China com matéria-prima (e também peças específicas) de vários outros países, depois comercializados pela Alemanha para o resto do mundo. Há uma cadeia global de produção interdependente. Pegue o exemplo da Embraer, já relatado na interessante tese de doutorado de Maria Regina Estevez Martinez (A globalização da indústria aeronáutica: o caso da Embraer): é impressionante como o desenvolvimento, a fabricação e a venda das aeronaves brasileiras estão inseridos em uma teia de países ao redor de todo o globo. 

A questão é que o sistema capitalista é marcado por crises periódicas e, quando elas vêm, é fato que muitos países entram em recessão e até depressão econômica. Mais do que isso, como tratei aqui há pouco tempo, existe um problema gigantesco na atualidade que é o aumento constante da desigualdade, algo que, por enquanto, tem sido reforçado por essa queda de fronteiras. Enquanto o operário de Detroit ou do ABC paulista vive a realidade do seu bairro e depende da variação de preços do supermercado da esquina para saber se vai comer mais ou menos no mês que vem, o banqueiro de Manhattan ou da Faria Lima movimenta seu dinheiro para onde quiser em segundos, protegendo-se das variações locais ou mesmo regionais do humor econômico.

A consequência dessa realidade é que a internacionalização do capital e a redução das fronteiras têm conseguido fazer o mundo se tornar mais rico no geral, com benefícios indiscutíveis quanto ao crescimento do PIB global, ao mesmo tempo em que provocam sentimentos nacionalistas exacerbados, que são aproveitados por políticos populistas. A conta é simples: o operário do ABC vê o mundo enriquecer, mas sente que não faz parte desse novo mundo rico, que tais benefícios da internacionalização simplesmente não vão chegar a ele. O político populista percebe esse sentimento e investe em quê? Em um discurso nacionalista criador de fronteiras, que restringe a circulação de bens e pessoas sob o argumento de que, se a farinha é pouca, meu pirão deve vir primeiro.
A questão é que a farinha não é pouca, ela só está mal distribuída. Se analisarmos o mundo antes e depois desse processo de internacionalização, perceberemos que hoje dá para fazer muito mais pirão do que antigamente, só que a porção de pirão de cada um tem sido cada vez mais desigual.

Combater a internacionalização e a redução de fronteiras, porém, não é a solução. Que diga a Coreia do Norte, país mais isolado do mundo e que provavelmente impõe, principalmente pelo isolamento, a pior qualidade de vida que um povo tem neste planeta (a ditadura não é responsável por isso, conforme prova a vizinha China). Por tudo isso, fiquei feliz com o fato do Prêmio Nobel da Paz de 2020 ter ido para o Programa Mundial de Alimentos da ONU. É um reconhecimento de que, juntos, somos mais fortes do que quanto estamos encastelados em nossos próprios países. É, também, um alerta de que devemos mudar o foco do discurso: ao invés de combater a internacionalização e de estimular o nacionalismo, o caminho deve ser o combate à desigualdade. Que busquemos uma forma mais humana de distribuir o pirão, mas sem cair na tentação de estimular políticas que diminuam a produção geral de farinha.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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