06/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 06/10/2020 às 08h00min

Acertei no Quino

LUCIANO FERREIRA
Fui mafaldado bem jovem, criança ainda e de cara nutri alguma antipatia pela Mafalda, afinal de contas ela fazia coisas que os adultos me proibiam de fazer: perguntar demais, confrontar, refletir, mostrar insegurança e por aí vai. 

O fato de ela não aparecer em produtos para crianças, em latas de extrato ou coisa do tipo, também me deixava desconfiado, parecia que ela não fazia força pra ser feliz… sei lá, talvez ela fosse muito semelhante aos resmungões que apareciam na tv ou em reuniões de vizinhos.

Demorou um tempo até que eu fizesse as pazes com a Mafalda e começasse a prestar atenção no Quino, pra daí saber que ele era argentino, que fazia charges, que frequentemente essas charges não usavam palavras, que usava e abusava do P&B.

Logo percebi que seus personagens eram elegantes, sempre de terno, chapéu, bem vestidos, até mesmo os mais pobres. Percebi também que o traço de Quino, tinha um estilo antigão, parecia coisa de jornal muito velho, daqueles que eu encontrava no fundo de armários, atrás da caixa de ferramentas, pra não sujar a tábua de óleo. 

Aí comecei a pensar ‘’será que esse Quino tá querendo fazer algo diferente? ‘’, ‘’será que não vai seguir as novas modas e mudar seu traço? Usar mais cores, ser mais moderno?’’.  Desconfiei que tinha algo estranho com o Quino, comecei a achar que ele era um daqueles rebeldes que apareciam em filmes e séries, daqueles meio tan-tans de óculos redondos e livros ensebados na mão. 

Mais ou menos nessa época, a Argentina foi bicampeã na Copa do Mundo de 1986, disputada no México e eu comecei a ganhar a noção que os brasileiros hostilizavam demasiadamente os argentinos, eu tava feliz porque a Copa veio pra nossos hermanos, mas muitos amigos e celebridades não viam isso com otimismo. 

Daí começou a minha malfadada vida de trabalhador, entregando roupas, office-boy, auxiliar administrativo, enfim, o bom é que vinha o salário pra comprar revistas e gibis. Aí começo a ver que espanhóis, mexicanos, colombianos e outros manos, também tinham uma produção de quadrinhos que são bem legais e estimulantes, que não eram exceções, mas tal qual a galera do Pasquim, Millôr e outros brazucas, eram referência em sua área.

Enfim, graças ao Quino, Mafalda e meu amigo chileno Roberto Vergara, comecei a ver os quadrinhos sul-americanos com o olhar que esses trabalhos merecem, seja em relação à técnica, narrativa, articulação de elementos gráficos, graça etc.

Mas taí, 30 anos depois disso, Quino se foi. 

Sinto um pouco de remorso por não ter pedido bença ou ter feito mais ‘propaganda’, talvez a necessidade de falar mais sobre os quadrinistas brasileiros tenha atrapalhado nisso, se bem o próprio Quino não era chegado a holofotes, ouvi dizer que ele não era chegado a entrevistas e mídia. Tanto que contornou a própria gênese de Mafalda (que foi criada para uma campanha não divulgada de eletrodomésticos) e não fez dela um produto.

Só quero dizer para vocês que a capacidade de expressão gráfica que ele tem, é algo invejável e parecia fazer parte de um processo que pretende contornar a dificuldade de traduzir tiras escritas em espanhol para outras línguas. Esse tipo de sensibilidade, considerando o contexto da década de 1960 em diante, certamente está relacionado com sua perspicácia em representar a Mafalda enquanto mulher, jovem e especificar sua localização geográfica ( a qual ele poderia ter feito de modo genérico), pois com isso Quino acompanhou de perto as transformações que estavam ocorrendo ou por ocorrer, como as de Maio de 1968, os movimentos de autonomia político-ideológica de países sul-americanos e o movimento feminista. 

E por favor, aceite uma dica que vale por uma cabeça: jogue ‘’Quino cartum’’ na sua página de pesquisa favorita, busque por ‘Imagens’ e veja se não é como ganhar numa megasena artística. 

Gracias por ajudar a nos enxergarmos melhor

Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, 17 de julho de 1932 - 30 de setembro de 2020


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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