03/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 03/10/2020 às 08h00min

O quase fim dos livros

ALEXANDRE HENRY
Hoje, saí para buscar o pão e, ao abrir o portão do prédio, deparei-me com um trabalhador da construção do prédio que fica em frente. Ele estava sentado na calçada, esperando não sei o quê, imerso na tela do celular. Ao chegar à esquina, olhei para a praça dois quarteirões abaixo e, mesmo com o astigmatismo que me castiga, identifiquei gente sentada no banco. Pela posição, estavam manuseando os celulares. No supermercado, as pessoas que estavam na fila do caixa também olhavam para as telas. Do lado de fora, na estação de ônibus, mais gente imersa nos celulares.

Não há mais tempo livre. Já falei que o ser humano perdeu a capacidade de contemplação, aquela coisa de ficar olhando para algo sem fazer nada, a não ser admirar. Perdeu porque não tem mais tempo para isso. Mas, o problema vai mais além. Desde sempre, qualquer cidadão passa por momentos de espera ao longo do dia. Você espera a sua condução chegar até você ou te levar até o destino, espera na fila do supermercado, da padaria, do órgão público. Espera uma pessoa amiga chegar. Quando não tem nada ou ninguém para esperar, às vezes a gente espera o tempo passar. E como a gente fazia isso até alguns anos? Se havia alguém por perto, era possível puxar uma conversa. Também havia a contemplação de que acabei de falar: era comum a gente simplesmente ficar observando alguma coisa besta por perto ou, em alguns casos, algo não tão besta assim, como um belo sol se pondo.

Não eram raras, porém, as pessoas que sempre andavam com algum livro para evitar que, tendo que esperar, o tempo fosse passado em vão. Por isso, até pouco tempo, a espera era uma grande amiga e incentivadora da leitura. Eu me lembro de fazer isso. Aliás, quando estudei para concursos, fui mestre na arte de não perder tempo, pois sempre carregava comigo um livro para aproveitar cada segundo do dia. Fora das épocas de estudo, não foram poucas as vezes em que tive uma boa literatura por perto para amenizar a monotonia de alguma espera.

Leitura é hábito. Se você não lê com frequência, a tendência é que leia cada vez menos. Para ler com frequência, você tem que ter algum tempo livre no seu dia. Mas, como ter tempo livre se o celular está sempre à mão? Como arranjar dez minutinhos em cada período do dia para ler mais algumas linhas se esses dez minutinhos são esperados com ansiedade para se verificar quais foram as últimas postagens nas redes sociais? É uma competição cruel que já tem um derrotado: o livro. O brasileiro nunca esteve entre os campeões mundiais de leitura. Agora, com telas e mais telas de eletrônicos, não só nós não melhoraremos nessa parte, como piramos bastante, piora em que somos acompanhados por quase todos os habitantes do planeta lerão menos.

Talvez eu esteja sendo um pouco injusto com os aparelhos em si. Eu mesmo tenho um eletrônico voltado apenas para leituras e é nele que tenho tentando me manter minimamente ativo no contato com os livros. O problema está, na verdade, no conteúdo fornecido pelos dispositivos eletrônicos. Ler é um ato prazeroso, mas cujo prazer não vem em doses rápidas e passageiras. Não é um prazer instantâneo, fugaz. A satisfação que a leitura traz demanda imersão na história, demanda mergulho nas páginas do livro, exige, em alguns casos, que você avance capítulos e mais capítulos até ser envolvido de tal forma por aquela narrativa que passa a sentir um prazer gigantesco. Já as redes sociais e outras distrações dos celulares, tablets e computadores fornecem uma dose cavalar de satisfação de forma instantânea, embora absurdamente passageira. Por isso, é natural que o ser humano pegue o celular ao invés de um livro quando tem um tempo livre, pois o retorno do conteúdo eletrônico é imediato e não demanda nenhum esforço.

Dos grandes males da nossa era trazidos pelas redes sociais, a destruição do hábito da leitura talvez seja um dos que mais prejuízo dará à humanidade em geral, especialmente às sociedades que ainda nem tinham chegado a um patamar elevado de leitura. Não são só livrarias e editoras que penarão. Aliás, quem vive de livro já sofre há um bom tempo. Quem penará será o ser humano mesmo, pois a aquisição de conhecimentos se tornará cada vez mais superficial, isso se houver alguma aquisição de conhecimento, já que o conteúdo que circula em rede social geralmente é apenas para diversão passageira. Sem os exercícios mentais provocados pela leitura, a capacidade de raciocínio tenderá a ser cada vez menor também. A questão é: que tipo de sociedade existirá daqui a alguns anos?


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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