03/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 03/10/2020 às 08h00min

UFA! Dessa vez eu não julguei

IARA BERNARDES

Em junho desse ano, escrevi um texto confessando que julguei, no início da pandemia, como as professoras das minhas filhas estavam lidando com as aulas online e, também, do puxão de orelha que a Val Ribeiro, minha amiga e psicóloga, me deu com todo amor e carinho, necessário para entender que apontar o dedo é bem fácil quando estamos do lado de cá, como meros observadores.

Essa semana, uma importante educadora parental, referência em educação positiva, postou um vídeo em sua rede social criticando o fato de a professora de seu filho estar dando aula remota sem remover a máscara. Na observação do vídeo ela falava algo do tipo: aula online já é difícil, como uma professora dá aula com máscara? Vi o vídeo por poucos segundos, voltei e percebi, o que aparentemente parecia o fundo de uma sala de aula. Quando retornei ao perfil para deixar meu comentário, a publicação já havia sido retirada. Mas vou falar aqui o que pensei quando vi a cena daquela professora americana em um cenário escolar.

Analisando por poucos segundos, imaginei que a professora estava dentro da escola, transmitindo a aula síncrona do seu ambiente de trabalho, sendo assim, provavelmente estaria em contato com outras pessoas. Imaginei também que ela pode pertencer ao grupo de risco e, por estar fora de um lugar controlado, resolveu se proteger. Além disso, ela pode simplesmente não ter se atentado para o detalhe de tirar a máscara.

No fim das contas, o motivo da máscara estar no rosto da professora, não importa. Dificulta? Com certeza! Mas isso não nos dá o direito de expor um profissional diante de milhares de pessoas por algo que não achamos ideal.

Não estou aqui também para arbitrar contra a blogueira. A verdade é que ela cometeu um deslize e fez o que devia rapidamente: deletou o vídeo.

Desse modo, o que venho propor, novamente, é a reflexão acerca de como nossos momentos de impulso podem ser prejudiciais, e a necessidade de pensar um pouco antes de agir. Além disso, penso o quanto os profissionais da educação estão expostos aos tribunais das redes sociais e aos julgamentos de quem os deveriam apoiar. Os pais precisam ser os primeiros a agradecer tamanha dedicação daqueles que formam seus filhos e se algo não lhes parece certo, ou ajustado, que fale privativamente, acolha essa dificuldade e os ajudem a melhorar, com o devido respeito que merecem.

Sendo assim, vamos fazer um combinado? Aliás, você sabia que combinados são acordos que fazemos com as crianças em sala de aula e quando queremos estabelecer compromissos com os filhos? Então vamos lá, nosso combinado será o seguinte: enquanto você acompanha as aulas online dos seus filhos, pense que aquele profissional do outro lado da tela também está sofrendo uma pressão enorme para desenvolver seu trabalho da melhor maneira e que a prática pedagógica presencial de anos foi substituída, em dias, por uma tela de computador, sem abraços quentinhos e risadinhas ansiosas. As aulas têm sido difíceis para os professores, principalmente da educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental. Afinal, não poder acompanhar o desenvolvimento de seus estudantes de perto, ver a letrinha ser formada, mostrar passo a passo a voltinha que a letra “a” faz e garantir que subtração, adição, fotossíntese, espaço urbano e rural está sendo compreensível para seus pequenos aprendizes, causa uma ansiedade danada.

Por isso, antes de deixar o sangue subir à cabeça, sacar seu celular, filmar uma parte da aula e despejar nas redes sociais, respire e pense na possibilidade de chamar o professor privativamente e conversar com ele, pois talvez ele esteja errado mesmo, pode ser, mas nada nos dá o direito tamanha exposição. Porém, se por acaso o fizer, volte atrás, se retrate e aprenda com isso, não lhe dando chances de fazer novamente.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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