02/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 02/10/2020 às 08h00min

Criando verdades

CELSO MACHADO

Toda pessoa consciente sabe da importância de falar a verdade. Esse comportamento é que diferencia pessoas e mostra as que têm princípios e valores válidos. Isso é óbvio, inquestionável.

Só que a verdade não pode, nem deve, nunca ser usada como justificativa para magoar, ofender ou agredir pessoas ou instituições. Em nome de “falar a verdade”, muitas vezes são cometidas maldades desnecessárias.

Uso uma analogia para exemplificar isso: quando alguém visita um ente querido acometido de uma grave doença, até mesmo em estado terminal, o que fazem as pessoas do bem quando perguntados por ele como está? 

Não faz sentido, em nome da verdade, expor a realidade terrível que o acomete. Quem é carinhoso, caridoso, busca referências, reais ou imaginárias, de que para quem tem fé tudo é possível. Pode até mesmo mencionar que conheceu doentes desenganados que por um milagre, sobreviveram e superaram adversidades tidas como incuráveis.

Nesse momento, não é a verdade que contribui, pois ela só aumentaria a dor e o desespero do doente. É a solidariedade que leva um sopro de esperança e ajuda um desfecho mais suave.

Mentira não? Amor. Todo mundo conhece um milagre inexplicável sob a luz da medicina. Buscar essa referência é que mostra verdadeiramente o que motivou a visita: amenizar o sofrimento ou aumentar a dor.

Um bom contador de causos usa muito esse recurso nas histórias que conta porque muitas vezes não é a realidade que encanta, mas a versão.

Aliás, o extraordinário Guimarães Rosa tem uma frase que coloca isso de maneira genial como só ele sabia dizer: nunca deixe a verdade estragar uma boa história!

Quando comento isso, costumo ser questionado se não estaria mentindo. Mas me faltava uma forma adequada de responder.
Esta semana um grande amigo fez uma observação exageradamente crítica sobre um assunto que eu estava ligado muito superficialmente.

Para não magoar o amigo, nem para deixar de responder, busquei uma explicação que não seria falsa, apenas uma interpretação própria da realidade.

Pronto, ele ficou satisfeito. Claro, eu também. E todos ficamos felizes. Nesse momento, refletindo sobre meu comportamento, concluí que ainda que pareça uma ambiguidade, havia criado uma verdade.

Olha só, eu que não crio juízo porque não sei o que ele come, como ensina o matuto, agora sou também criador de verdades. E verdades verdadeiras... 


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
    

 

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