01/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 01/10/2020 às 08h00min

Mundo melhor

IVONE GOMES DE ASSIS

Ao assistir o debate político entre Trump e Biden, nesta terça-feira, em uma disputa horrorosa pelo poder, em meio a terríveis trocas de farpas, em que foram expondo a roupa suja do governo americano e, como todos sabem, “roupa suja se lava em casa”, fiquei pensando no quanto a fome de poder denigre as pessoas. E não houve como não comparar o episódio à obra “Don Camilo e seu rebanho”, de Giovanni Guareshi, uma publicação de 1952, que tive a alegria de lê-la, graças a um amigo que me emprestou seu exemplar amarelado, porém vivíssimo, como se acabara de nascer.

A citada obra trata do embate ideológico entre Esquerda e Direita, representadas pela Igreja (abade Don Camilo) e pela Administração Pública (Peppone) de uma cidadezinha da Itália, cuja intenção de ideais começou antes da Segunda Guerra, mas se intensificou no pós-guerra, ou melhor, durante a guerra fria na Itália, quando aqueles ex-combatentes já se encontravam em vida adulta e rosnando por um naco de poder embebido de política.

Guareschi diverte seu público com as ambições e confissões de pecado do rebanho de Dom Camilo, cujas peripécias são representadas pelo Poder de decisão impetrado nas personagens Dom Camilo e Pepone, os quais formam a autoridade máxima daquele lugar. Aquela guerra entre “o bem e o mal”, cheia de fé, política, imprecações e muito humor, vai formando um divã de confissões da comunidade a Don Camilo e este, por sua vez, confessa os seus desacertos ao próprio Cristo.

Nos conflitos sociais explanados, Guareschi vai dando um choque de realidade no leitor, no contexto contraditório da organização social, marcada pelos proletariado e poder público, em suas insígnias de fé e de domínio, em que tudo se resume às confissões, ainda que sejam admissões seladas fora do contexto religioso, na roupagem de diálogo entre pessoas que se respeitam, porém com o compromisso de sigilo, tal qual se deve guardar um confessor.

Por mais complicada, tênue e impensada que seja a situação, sempre teremos ali o humor e o encorajamento. E por mais que seja um embate entre o eclesiástico e o comunista, quando se trata do bem coletivo, das decisões que poderão mudar o curso da história do vilarejo, seus representantes enfiam o orgulho no bolso e pensam como líderes ou, quem sabe, como homens civilizados, por mais que isso signifique Peppone, e suas blasfêmias, se calar ou Don Camilo, e suas excomunhões, fazer vista grossa, para lutarem lado a lado, enfraquecendo o ódio.

Cada capítulo merece um aprofundado estudo, mas vou ater-me a explanar brevemente “O capanga”, em que a disputa pelo poder entre Don Camilo e Peppone é invadida por um terceiro, o Mericano, um filho da terrinha, que passara 30 anos de sua vida a derrubar árvores no Canadá e, ao voltar, passa a ser o bestial valentão do entorno. Em uma de suas desvairadas exibições, de demonstração de força, Mericano desloca um monumento colossal, voltando sua face do norte para o nordeste. Era uma ação infundada, mas que demonstrava poder, e desafiava Peppone, o administrador também valentão, fazendo-o tremer nas bases. Então, Don Camilo, o outro colossal, foi lá e voltou o monumento para o devido lugar, mostrando ao Mericano que os de cá também têm força. Sentindo-se humilhado, Peppone, na calada da noite, em surdina, girou o monumento para o nordeste. O povo entendeu que fosse um revide do Mericano e decretou guerra. Para evitar a batalha sangrenta, o mediador Don Camilo apurou os fatos e colheu as confissões, chegando ao veredicto de que agiram por ignorância, sendo responsáveis pela confusão, portanto, obrigados a consertar o monumento. Vendo, cada qual, sua incapacidade física, graças à força descomunal outrora empregada, os três grudaram no monumento e, com esforço descomunal, voltaram-no à normalidade, findando a guerra. “Assim acabou o ódio que dividia as duas terras” (p. 144). Afinal, ser líder é conduzir os homens para que se construa um mundo melhor.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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