15/09/2020 às 09h00min - Atualizada em 15/09/2020 às 09h00min

Itamar Assumpção, o mar está na rede

ENZO BANZO

Na última sexta-feira, veio à rede e veio à tona, enfim, a discografia completa de Itamar Assumpção nas plataformas digitais. Se hoje em dia o acesso pela internet tornou-se fato corriqueiro, no caso de Itamar, a disponibilização online do conjunto da obra é de se comemorar. Ita nunca se valeu dos braços de difusão e distribuição das grandes gravadoras. Produziu e lançou seu primeiro disco na entrada dos 80 de maneira independente, quando isso estava longe de ser a prática comum que já vivemos há algum tempo.

Assumpção sempre fez uma arte "às próprias custas s. a.", título de seu segundo disco. Quando comecei a ouvi-lo e a deslumbrar-me com a originalidade de sua linguagem, em fins dos 90, encontrar um disco de Itamar em um sebo era como achar uma figurinha premiada. Os CDs deveriam ser buscadas em lojas especializadas, voltadas a discos raros, mesmo que recentes. Comprar pela internet? Nunca tinha ouvido falar.

"Se a obra é a soma das penas, pago mas quero meu troco em poemas", canta Itamar em uma de suas parcerias com a poeta Alice Ruiz. A obra completa, soma de suas penas (escritas, sofridas) nos oferece o regozijo do troco. São doze discos, sendo nove lançados pelo artista entre 1981 e 1998, e três póstumos, produzidos após sua morte em 2003, com composições inéditas cantadas pelo próprio Itamar para projetos que não chegou a finalizar. Em 2010, essa soma das penas já havia sido reunida no box de CDs "Caixa Preta". Hoje, basta um clique.

É preciso ouvi-lo: original e atual, quase duas décadas após sua precoce partida. O título da trilogia final, "Pretobrás", nos dá a pista. Na simples troca de lugar da letra "r", inverte-se e revela-se nossa riqueza maior: o Preto Brasil é o verdadeiro Petróleo Brasileiro, personificado em Itamar, que absorve a recria a música e a cultura do país, estruturalmente marginalizadas.

O conjunto de sua obra, sempre escondida atrás dos muros, nos permite mergulhar na diversidade dos itamares únicos, a começar naquilo que qualquer canção carrega de mais particular: a voz. Podemos notar como o canto de Itamar Assumpção vai caminhando para uma região mais grave e encorpada a cada novo disco. Um grave potente e inconfundível, de silabação em dicção perfeita, tocando tambor com as consoantes, em automergulho: "cantar estancou o meu sangue".

Para Itamar, compor não se resumia a criar letra e melodia. O arranjo é elemento primordial da composição, e daí o papel central das bandas Isca de Polícia e Orquídeas do Brasil ao longo da discografia. Essa concepção de arranjo como composição pode ser observada com clareza nas releituras sobre obras que o antecederam: em "Às próprias custas S. A" (1983), ouça-se o rock iêiêiê "Noite de terror" (do repertório do rei Roberto) transfigurado em trilha teatral climática e soturna; e em "Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - pra sempre agora" (1995), entorte-se o rebolado na revirada sobre um de nossos mais clássicos cancioneiros; o que se encontra é uma música saborosa que desconfia do que é fácil e dado: "laranja madura / na beira da estrada / tá bichada, Zé / ou tem marimbondo no pé".

Como compositor, o que vai amadurecendo, sem jamais passar do ponto, é a veia do Itamar poeta-letrista. Aspecto original desde o primeiro disco, marcado pelas autopersonas de "Beleléu", Ita segue um percurso rumo à densidade material do texto cantado, de sentidos vários condensados a cada estrofe, a cada verso, a cada silêncio: "quando estou longe / quero ficar perto / quando estou perto / quero ficar dentro / quando estou dentro / quero ficar mudo / quando estou mudo / quero dizer tudo".  Tudo está dito, tudo está cantado. Ouçamos Itamar.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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