04/09/2020 às 08h00min - Atualizada em 04/09/2020 às 08h00min

TOC e o novo corona

WILLIAN H STUTZ
O novo corona trouxe para alguns, por incrível que pareça se não conforto, um grande alívio. Os portadores de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), nunca se sentiram tão “normais”, tão iguais a todo mundo. Se antes sofriam para esconder suas fobias, hoje passam despercebidos na multidão, além de se tornarem também instrutores de higienização sem sentir culpa: — Não, não é assim que se faz, tem que esfregar mais entre os dedos, dá mais uma passadinha nas costas da mão, isso, agora sim.

Pode parecer pura brincadeira com coisa séria, mas não o é. Os portadores de TOC sofrem horrores, são discriminados e olhados de lado, como se fossem bichos-grilos. Quando não, tachados de cheios de frescuras sem sentido. Falo com conhecimento de causa, pois eu mesmo sou um deles e tenho um monte de manias: verificar várias vezes se acionei o alarme do carro, num pisca-pisca sem fim. Se fechei a porta da geladeira ou se fechei o registro do gás.

Outra mania que carrego desde bem pequeno é a de ler tudo de trás para adiante. Inventando um linguajar todo meu, passo a conversar sozinho usando as palavras assim lidas, posso garantir é muito mais divertido do que a língua do “pê”.

Certo, não cheguei, ainda, a ponto de não abrir porta de banheiro público, de deixar de andar de ônibus, atualmente diminui muito por conta das aglomerações que as autoridades municipais fingem fiscalizar, ou de contar dinheiro, obviamente lavando as mãos após estas e outras atividades, pois assim fazia mesmo antes do novo corona, sem culpa ou medo exacerbado. Também já fui rotulado de adepto compulsivo do colecionismo, principalmente em se tratando de panelas de ferro e pedra sabão e móveis antigos. Diga-se, de passagem, que minhas panelas não viram meras peças de decoração não, são para uso mesmo, afinal, um feijãozinho na panela de ferro tem ou não tem seu lugar?

Quanto aos móveis, estou temporariamente impedido, pois nada mais cabe em minha casa.

Todos nós carregamos nossos rituais, nossas repetições, evitações. Tudo depende do grau destas e se elas interferem ou não em nossas vidas de maneira negativa.

Lavar as mãos antes das refeições é educação e sanitariamente correto e necessário. Toda criança, se não sabe, deveria ser ensinada a saber. Agora, lavar as mãos após cada garfada já fica complicado.

TOC nunca foi tão normal. Desde as lavações repetidas de mãos e topar com irresistíveis garrafas de álcool gel estrategicamente distribuídas por todos os cantos e recantos da cidade, não somos notados. Ninguém mais nos observa. Os olhares com as sobrancelhas e risinhos disfarçados andam sumidos. E quer saber, estou começando a achar tudo isso uma chatura, uma mesmice. Já estou querendo minha esquisitice de volta. Resta-nos um consolo, em épocas de pandemias passamos a ser exemplo de conduta, mão de obra qualificada e disputadíssima. Façamos de nosso TOC uma arte. Vamos vender bem nosso peixe.

Tem TOC? Se te incomoda muito a ponto de atrapalhar sua vida, não vale a pena o sofrimento, não tenha vergonha ou medo do que vão pensar ou dizer. Procure ajuda médica. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), segundo os especialistas, traz resultados fantásticos. Todos têm o direito à felicidade, do bem sentir. A vida é muito curta para sofrimentos evitáveis.

Mas se, como eu, você prefere levar sua idiossincrasia numa boa e bom humor, se exponha, afinal você e eu é que tínhamos razão. Com o novo corona ou sem ele, de agora em diante, estamos brilhantemente na moda. 

Mas se puder fique em casa, se sair use máscara e mantenha o distanciamento social, não é uma gripezinha.

Porém, às nossas manias, um toque de arte.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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