01/09/2020 às 08h00min - Atualizada em 01/09/2020 às 08h00min

Não temos uma rua "Custódio Pereira"

ANTÔNIO PEREIRA

Já questionei isso há 20 anos, pelo jornal Correio de Uberlândia. Na ocasião, um jovem me escreveu dizendo que havia o bairro Custódio Pereira. Respondi-lhe dizendo que ficava muito feliz de saber que um jovem se interessava pelo passado de sua cidade. Expliquei, também, que quem nomeava o bairro era a imobiliária responsável e não o poder público. As ruas, avenidas, praças são nomeadas pelo Poder Público. A nomeação pelo Poder Público é um reconhecimento do valor do homenageado.

Existe no bairro Bom Jesus, a rua “Costa Pereira” – que é um nome de família. Custódio merece uma distinção pessoal por sua dedicação ao desenvolvimento social, cultural, econômico do município.

Ele não era uberlandense. E quem era, lá pela segunda metade do século XIX? Veio de Lavras. Não é dos tradicionais Pereira daqui. Seus pais foram Francisco Custódio Pereira e Laudemília do Nascimento Costa.

Em dezembro de 1893, Custódio mudou-se para Monte Alegre e, um ano depois, para Juiz de Fora, contratado como gerente de uma casa comercial. Pouco tempo depois voltou para Monte Alegre e, dali, veio para Uberabinha. Era 1896. Tinha sido contratado para ser gerente da casa comercial do italiano, vice-cônsul, Ângelo Zócolli. Em 1898, casou-se com Laudemila Vilela da Costa.

Tiveram uma única filha, Ondina Costa Pereira. Em 1899, passou a ter negócio próprio, em sociedade com Anízio Vilela de Andrade, na praça da Independência (cel. Carneiro).

Viúvo, casou-se com a filha do ex-patrão, Hermínia Zocolli, em 1900. Tiveram onze filhos: Lívio, Levindo, Elsa, Maria Ângela, Hermínia, Elida, Clélia, Edith, Clarice, Custódio e Domício.

Nesse mesmo ano, 1900, dissolveu a sociedade e montou casa comercial na praça da Matriz (Cícero Macedo). Foi vereador a uma das primeiras Câmaras e, em nome dela, participou do Congresso Comercial, Industrial e Agrícola de Belo Horizonte, em 1903. A 1° de maio de 1908, foi guindado ao posto de presidente da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. Essa instituição ficava na avenida Floriano Peixoto, onde é hoje uma loja de automóveis.

Incentivou e participou da instalação de uma fábrica de tecidos que se organizou na cidade na segunda década do século passado. Fez parte da Sociedade Progresso de Uberabinha, responsável pela construção do prédio (“museu”) do Colégio Estadual na praça d. Pedro II (Adolpho Fonseca) e foi eleito vereador para diversas gestões, geralmente com os maiores sufrágios.

Em 1909, construiu e instalou o primeiro cinema, na rua Felisberto Carrejo. O Cine Theatro São Pedro não foi apenas um passador de fitas. Ali se apresentavam peças e atores locais, músicos da cidade e de nomeada nacional, trupes teatrais e conferencistas. Sua inauguração se deu a 28 de novembro de 1909. O preço do ingresso era quinhentos réis. Antes do São Pedro, houve rápidas experiências cinematográficas, geralmente em fundos de quintais apresentando apenas imagens em movimento, como um tal Cine Íris, se não me falha a memória, de um membro da família Grama. Era no Cine Theatro São Pedro que os políticos comemoravam suas vitórias e onde, geralmente, explodiam espontaneamente os festejos carnavalescos, em plena sessão, com confetes, serpentinas e algumas cadeiras quebradas.

Foi sócio acionista do Fernando Vilela na construção das estradas pioneiras do Brasil. Em 1922, Custódio, em sociedade com José Thomaz de Rezende, instalou a segunda charqueada da cidade, à margem do rio Uberabinha.

Em 1935, construiu a primeira piscina de azulejos da cidade. Organizou uma sociedade de frequentadores que a mantinha. Faziam parte dela, o prefeito Vasco Giffoni, Tito Teixeira (que foi o primeiro a assinar a lista de associados), o médico Leopoldo de Castro, o dr. Luiz Arantes e muitas pessoas interessadas no esporte da natação.  Algum tempo depois, o Estado de Minas Gerais adquiriu a piscina e a área em torno instalando a Praça de Esportes Minas Gerais, depois transformada em Uberlândia Tênis Clube (UTC). Por muitos anos, apesar das mudanças de nome, o local ficou conhecido como “piscina” apenas, uma referência à sua origem.

Político ativo e homem ligado ao desenvolvimento da cidade, encontramos o nome de Custódio da Costa Pereira em todas as atividades sociais dos princípios do século passado. Foi dos primeiros a adquirir automóvel na cidade. Era um motorista sui gêneris. Parava nas esquinas e ia olhar não vinha algum outro automóvel ou carro de bois pela travessa. Seguro, fazia o cruzamento.

Mais do que ninguém, ele merece uma rua, uma praça, uma lembrança qualquer deste povo trabalhador feito à imagem dos nossos grandes pioneiros.
 
Fontes: Tito Teixeira e jornais da época


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 

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