16/07/2020 às 10h14min - Atualizada em 16/07/2020 às 10h14min

O José

IVONE ASSIS
É comum ouvirmos “todos são iguais perante a lei”. E como somos perante o homem comum, nosso semelhante? A desigualdade é uma navalha cortante. E, embora todas as desigualdades firam absurdamente, aquelas que habitam o pensamento são as de maior poder de persuasão no receptor. Por mais dificuldades que haja, é essencial que o sujeito, em si, carregue a virtude, a autoconfiança e a autodeterminação. Sem isso, viverá o desequilíbrio da vitimização. O tempo é curto e a felicidade é fundamental. Cecília Meireles escreveu: “ÉS PRECÁRIA e veloz, Felicidade. / Custas a vir, e, quando vens, não te demoras. / Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, / e, para te medir, se inventaram as horas”.

O direito busca garantir a igualdade, conforme as desigualdades de cada um. Deus não faz acepção de pessoas, já a sociedade não tem muito traquejo. Quase sempre, o maior perigo está na cabeça do sujeito. Na semana passada, enquanto eu passava, rapidamente, pela João Naves, avistei um cadeirante sozinho. Ele tinha, a meu entender, muitíssima dificuldade de mobilidade e de fala. Fui até ele: Bom dia, qual é o seu nome? / José / Tudo bem, José? Você está só? / Sim / Onde você mora? / No Shopping Park / Como veio parar aqui? / O que você acha? De ônibus, né / Onde você vai? / Ao Carrefour / O Carrefour ficou para trás / Mas eu passo é por aqui / Quer uma ajuda? / Sim/.

Comecei a guiar sua cadeira de rodas, enquanto ele me guiava o trajeto. Precisei afiar os ouvidos, pois a voz não era habitual. Expliquei minhas razões e ele as dele: Geralmente, uma pessoa com dificuldade de mobilidade sai acompanhada / Você está parecendo meu pai. A limitação está aqui (apontando, do seu jeito, para a cabeça) / Você vai fazer compras? / Não. Passear/. Naquela hora é que me dei conta do quanto eu via tudo pequeno. Ele via grande. Imagine só, alguém com tantos limites, percorrer tamanha distância para passear em um mercado. Lembrei-me de uma frase de Carlos Hilsdorf: “Quaisquer que sejam as nossas metas na vida [...]: teremos que superar a nós mesmos para realizá-las. Portanto, nunca transforme limites em limitações”. José sabe de suas fronteiras, mas com esforço e dedicação vai se superando. Ele não concreta limitações em seu viver. Perecia que eu não estava pronta para enxergar a grandiosidade que é viver. Comentei: Cadê sua máscara? Sem ela não entra / Lá eles têm/.

Eu via em José um verso de Castro Alves que diz: “Eu sinto em mim o borbulhar do gênio; vejo além um futuro radiante: Avante!”. Ele foi contando sobre sua morada, as preocupações do pai..., enquanto eu ia aprendendo a enxergar a vida de modo mais límpido. A forma consciente para dar vida a esses saberes é por meio da igualdade. Lembremos Paulo Freire (1987, p. 68): ''Não há saber mais, nem saber menos, há saberes diferentes''.

Ora, ora, o tempo nos ensina, e o modo como lidamos com o aprendizado é essencial na resolução dos problemas. A família é muito importante, mas é mortal. Por isso, talvez, Deus tenha nos concedido a autoestima, pois é com ela que alcançamos equilíbrio e determinação, para enfrentar a saudade, o trabalho, as disparidades e por aí vai. A vida é comportamental. Emoção com racionalidade estabelece o bom senso, desse modo é mais fácil vencer os momentos ruins.

Evoco Cecília, outra vez, com “Motivo”: “EU CANTO porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta. [...] / Sei que canto. E a canção é tudo. / Tem sangue eterno a asa ritmada...

“Motivo” apresenta a vida e a sensatez. É estar consciente, dentro de sua possibilidade existencial. É reinventar-se e se manter sereno na vida. Em muitas canções e versos residem o José.



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