09/07/2020 às 10h20min - Atualizada em 09/07/2020 às 10h20min

Cego Mundo

IVONE ASSIS
Estamos vivendo um momento delicado, em que a cegueira tem tomado conta da humanidade. Basta observar a rua ou assistir aos noticiários para que fiquemos estarrecidos com a capacidade de não enxergar o óbvio, que tem tomado conta do ser humano. Alguns vivem como se fossem ficar eternamente neste mundo, com isso, querem abocanhar todas as riquezas e ignorar todas as gentilezas e integralidade humana, cegando-se diante da vida. Outros, por ingratidão ou por loucura, se esquecem de agradecer, e se põem a se negar a ela, ou a negar-se àquele quem lhe deu. De tal modo que, no vaivém das pessoas, é comum depararmo-nos com aquelas que estão somente passando pela vida, sem notá-la, ou sem ser notado.

No "Ensaio sobre a cegueira" (1995), José Saramago relata a "cegueira do mundo", dentro do próprio mundo. O homem é composto de muitas facetas, mas, “Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são” (SARAMAGO, 1995, p. 128). Esse ensaio é uma espécie de estética do aprendizado. A obra já se abre convocando o leitor ao conhecimento emergencial: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” (p. 9). Antes, encontramos ainda a questionadora indignação: "É preciso cegarem-se todos, para que enxerguemos a essência de cada um?".

O romance, como gênero, tem se convertido em outra forma de contar, tem se fechado ao estilo, abrindo-se ao indivíduo. É como se aí encontrássemos a "profecia" de Walter Benjamin, quando este anuncia o fim da arte de narrar. Não por falta de assunto, mas, sim, de conhecedor, uma vez que o narrador se encontra cada vez mais pobre de experiência: "A arte de narrar está em vias de extinção" (BENJAMIN, 1994, p. 197). Segundo Benjamin, há um constrangimento sempre que se pede a alguém que narre algo, isso porque “as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo” (BENJAMIN, 1994, p. 198). Esse empobrecimento vem acometendo não apenas o homem comum, mas também contadores, escritores, jornalistas, filósofos, pesquisadores... Todos, no mais completo emudecimento narrativo e cegueira observacional. Isso servirá como "agente depressivo" para o leitor, em sua solidão, o qual, sem a companhia do narrador, irá absorver apenas a incompletude de suas palavras.

Frente às mudanças rítmicas do observar e do narrar, Saramago, em "Ensaio sobre a cegueira" escreve sobre a possibilidade de se aprender pela experiência alheia. Então, em seus vários desdobramentos, seja na voz do narrador, nas máximas, no enredo ou outro, lá está a estruturação da narrativa.

Para o escritor, ilustrador, vencedor de vários Jabutis e jornalista Ricardo Azevedo: "O livro é um lugar de papel e dentro dele existe sempre uma paisagem. O leitor abre o livro, vai lendo, lendo e, quando vê, já está mergulhado na paisagem".

O portal que leva a esta paisagem está sempre aberto e a senha é "observação". O sujeito que narra vai espalhando gotículas no ar, e onde elas caem, germinam aquilo que levam. Portanto, se levam conhecimento, estupidez, amor, mentira, esperança, desilusão ou seja lá o que for, ao cair em solo de imaginação fértil, ganhará proporções descomunais. Aí mora a responsabilidade daquele que narra, que escreve, enfim, daquele que pinta o cenário, cuja paisagem se cria pela palavra.

Ao observar os surtos que maculam a história, volto em Ricardo Azevedo, em seu poema "Epidemia" (2005), quando o poeta desabafa: "Quero o alastramento da felicidade / A propagação do sonho / O surto da esperança / Quero o declínio do insucesso / O decréscimo da derrota / A  demolição do desalento // Quero a disseminação da boa-nova / O vírus alvissareiro / O contágio da alegria // Quero a extinção do desastre / A anemia da descrença / A agonia do pessimismo // Quero o tráfico da poesia / A precisão exata da anomia / A epidemia noite e dia / Da utopia".

A palavra deve ser como a luz que alumia o dia, para que em qualquer estação clareie o cego mundo.



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