07/07/2020 às 12h03min - Atualizada em 07/07/2020 às 12h03min

O som do sol, a voz de Elza

ENZO BANZO
No Festival Timbre de 2018 caiu um toró danado antes do evento, aquele clima tenso na produção, será que vai, será que não. Minguou a chuva e quando o sol brilhou mais uma vez chegamos os Porcas Borboletas pra montar o palco, mas calma, espera aí, agora ainda não. No meio da luz milagrosa brilhava a Deusa na boca aberta de Niemeyer: Elza Soares passava o som, "disparo contra o sol, sou forte sou por acaso", e a gente ali no fundo tocando o solo sagrado sob a força daquela emanação. Deus é mulher, divina Elza.

Curioso pensar que o disparo contra a chuva se dava no mesmo festival em que Tulipa Ruiz havia se apresentado um ano antes; como conta a compositora, naquela viagem a Uberlândia, no Timbre de 2017, foi composta "Banho", catártica celebração feminina gravada e lançada por Elza em "Deus é Mulher", seu álbum de 2018. Banho de chuva, essas voltas malucas da Água-Terra me fizeram antever alguma conexão entre Elza Soares e a nossa Uber fértil. Súbito, Elza-Macunaíma fundiu-se em minha mente à figura de Grande Otelo, filho fugido predileto desse cerrado. Corri ao Google para procurar alguma relação menos abstrata entre os dois, e lá estava, em uma lista em que personalidades elegiam seu herói negro nas comemorações do 20 de novembro, a imagem de uma ao lado da cara do outro, o pequeno Grande Otelo eleito pela rainha como seu máximo herói.

Festival Timbre, Tulipa Ruiz, tudo tão contemporâneo, ligados a Grande Otelo, força bruta e lapidada de uma longa tradição. Só mesmo Elza para propiciar essa ponte. A cantora, que acaba de completar impressionantes 90 anos, parece ser um elo capaz de ligar todo o percurso de nosso cancioneiro edificado a partir da Era de Ouro do Rádio, nos anos 1930, os tempos de Noel Rosa e Ary Barroso. É pelas mãos de Ary que emerge a primeira aparição de Elza Soares, à época uma adolescente pobre e maltrapilha, que se aventurou a apresentar-se no programa de calouros do compositor de "Aquarela do Brasil". Zombando da estranha figura, Barroso indagou: "de que planeta você veio, minha filha?"; "do planeta Fome", cravou Elza. A dureza da resposta, seguida pela interpretação de "Lama", já anunciava a força libertária da diva: "se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo". Ao final, a conclusão inevitável do compositor-apresentador: "senhoras e senhores, acaba de nascer uma estrela!"

Essa mesma Elza Soares, cuja primeira gravação data de 1959 (ano-marco do lançamento de "Chega de Saudade", de João Gilberto), lançou o disco que se constitui, certamente, como o mais marcante dos anos 2010: "A mulher do fim do mundo", tessitura inventiva que envolve os sons e versos de uma notável geração de artistas da cena paulistana, Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, a lista é grande e densa. Desde então, uma sequência de lançamentos a tornou referência para um público que abarca todas as gerações, sobretudo jovens que poderiam até ser seus bisnetos.

Como não para de produzir em diálogo com a contemporaneidade, conjugando a firmeza política negra e feminina à inovação estética, Elza Soares acaba de publicar um novo single, dentre as comemorações de seus 90. A canção é o clássico samba "Juízo Final", composto por Nelson Cavaquinho e Élcio Soares na década de 1970, numa versão com temperamento rock e sonoridade de pista de dança, dessa vez acompanhada por figuras como Pupillo (ex-Nação Zumbi) e Fernando Catatau (Cidadão Instigado).

Ressignificada, posto que Elza é sempre canto presente, a faixa é sopro de esperança diante do fim do mundo que vivemos. A força dessa voz renovadora, capaz de parar as chuvas e enxaguar as nascentes, é a fé que precisamos para crer em algum futuro: "o sol há de brilhar mais uma vez". 


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.











 
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