20/06/2020 às 13h04min - Atualizada em 20/06/2020 às 13h04min

Carta a meus pais

IARA BERNARDES
A maternidade traz uma versão reflexiva que muitas vezes nos faz perceber o quanto os filhos são ingratos e egoístas. Sempre tive uma relação tranquila com meus pais, mas a adolescência, seguramente, se mostrou um divisor de águas na minha vida, me tornando arrogante e toda dona da verdade. Claro que admitir isso nunca estaria na minha lista de coisas a se fazer até 2030, no entanto, essa é uma reflexão importante e necessária rumo ao autoconhecimento e mudanças a que me propus nesse momento. Da mesma maneira que me desafiei a isso, gostaria que você, meu leitor, refletisse sobre como é a sua relação com seus pais e as pessoas que dedicaram e dedicam a vida a você.
 
“Pai, mãe, filhos são ingratos, já nascem sabendo reclamar, choram, dão birra, empoleiram, se sentem únicos e necessitam de atenção 24 horas por dia, pequenos seres egoístas que, mesmo recebendo a melhor educação e todo amor, insistem que o mundo gira em torno de seus umbigos e não admitem que seja diferente. Se aproveitam da humanidade de seus genitores para buscar nas maiores mazelas da humanidade a culpa por suas próprias falhas, defeitos intrínsecos à sua personalidade, muitas vezes medíocre que, mesmo com muito esforço, seus pais e cuidadores não foram capazes de moldar. Hoje eu percebo o quanto falhei como filha: poderia ter beijado mais, respeitado mais, afagado mais, conversado, compreendido, aceitado e acolhido. Minha falha não é culpa de vocês, minha, somente minha por ainda, mesmo depois de adulta, ser tão egoísta e capaz de sugar até a última gota de paciência e vitalidade que lhes resta. Ainda achando que esse meu pequeno mundo é a única coisa do universo. Peço perdão por não entender antes que somos todos crianças nesse negócio de viver, aprendemos a ser bebês e junto, vocês, recém-nascidos aprendem a parentalidade. A cada novo choro, um desafio e quando aprendemos a ser criança, vocês ainda não aprenderam tudo sobre serem pais, afinal, cada dia é uma metamorfose e quando, assim não é, se mantendo em estabilidade por pouquíssimo tempo, vocês pensam o porquê de ainda não termos aprendido. Dessa maneira seguimos, os filhos sempre se aprimorando na arte de desafiar, irritar e desrespeitar os pais e vocês cada vez mais apreensivos por, em muitos momentos, já não saberem mais que recurso utilizar para educar suas crias, para criar magicamente a sabedoria necessária aos desafios cotidianos, aqueles bobos momentos que nos obriga a repetir sempre as mesmas instruções e direcionamentos. Com os joelhos no chão peço perdão e compreensão, pois agora vocês já aprenderam a ser pais, porém só agora descobri realmente o que é ser filha. Depois de tantos anos percebi que nem tudo deve ser mesmo como achava que era, ou se me opus bravamente às instruções e conselhos, fui cabeça dura, podendo ter trilhado caminhos menos tortuosos. Porém, agradeço por terem me permitido, sempre com muita sabedoria e vigília, caminhar com minhas próprias pernas, viver situações que seguramente não eram as que vocês almejavam, entretanto estavam sempre na retaguarda, como nos primeiros passos, incentivando a caminhada, todavia com os braços estendidos de prontidão à evitar o tombo certo. Obrigada por me verem chorar e num outro canto chorarem juntos por não saber como acolher aquela dor, e ainda assim secarem nossas lágrimas e me aprumarem para a vida, pois essa não para nem diante da morte de quem se ama. Obrigada por me mostrarem que a construção do caráter se dá nos pequenos gestos e nos deitar sabendo que a corretude de nossas ações no guiou até ali é a melhor leveza que podemos ter na vida. Agradeço também por não me darem tudo, por me ensinarem que nem tudo o que queremos é tudo o que precisamos e que quem ama sabe suprir nossas necessidades sem atender a nossos caprichos. Enfim, gratidão é definitivamente a palavra que rege minha vida em relação a tudo que sou graças a vós. Amo vocês”



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