19/06/2020 às 16h22min - Atualizada em 19/06/2020 às 16h22min

A tromba do elefante

Ana Maria Coelho Carvalho, [email protected]
Há tempos, na Tailândia, uma elefante fêmea de 48 anos, Motola, voltou a caminhar depois de dez anos sem andar. Ela perdeu a perna dianteira na explosão de uma mina terrestre. Depois de tanto tempo, ganhou uma perna mecânica conseguida com fundos arrecadados por defensores dos direitos animais.

Fiquei feliz por ela e comecei a pensar nos elefantes. Doze toneladas e quatro metros de altura de pura maravilha da natureza, um colosso. O maior vertebrado terrestre. Com pele grossa (daí o nome paquiderme), orelhas grandes que abanam para refrescar o corpo, patas grossas parecidas com pilares de sustentação, grandes almofadas nos pés, dentes incisivos transformados em presas (ou marfim), olhos pequenos e dóceis. Com cérebro complexo e boa memória, capazes de comportamentos notáveis, como demonstrar sofrimento pela morte de parentes, acariciando o corpo com a tromba e tocando suavemente o cadáver com as patas.

No entanto, o  mais espetacular e admirável no elefante é a tromba. Um apêndice versátil, sem ossos, que funciona como um nariz, uma mão, um pé extra, um dispositivo de sinalização, uma ferramenta para recolher alimento e água, jogando-a na boca ou sobre o corpo. A tromba também tem funções sociais. Serve para acariciar, fazer investidas sexuais, tranquilizar o companheiro, trocar cumprimentos e abraços. Quando é levantada, é sinal de aviso ou ameaça. Abaixada, é sinal de submissão. Entre os machos, pode se tornar uma arma durante a luta. Se há intrusos por perto, podem bater nos mesmos ou agarrá-los e atirá-los no ar. Podem também usá-la como periscópio e, pelo cheiro, determinar a presença de amigos, de inimigos e de fontes de alimento. Equipada com cerca de 50.000 músculos, pode arrancar e empurrar com força de toneladas. Mas também é capaz de operações delicadas, como pegar um amendoim e colocá-lo na boca.

Richard Dawkins, biólogo e influente cientista da evolução, em seu livro "A escalada do monte improvável", explica que foram necessários milhões de anos para se criar essa maravilha da evolução. A tromba dos elefantes começou como um simples nariz. Os ancestrais desses animais devem ter incluído uma série contínua de intermediários com narizes mais ou menos alongados, parecidos com antas, macacos narigudos ou elefantes marinhos (nenhum destes animais é parente próximo do elefante). Assim, a partir de um ancestral de nariz curto, surgiram outros com narizes cada vez mais longos, músculos cada vez mais espessos e nervos intricados. É provável que a tromba tenha se tornado progressivamente mais eficiente em seu trabalho, a cada centímetro aumentado.

E daí vem o homem matando brutalmente os elefantes para a retirada do marfim, acabando brutalmente com milhões de anos de evolução. E formando grupos criminosos para esse comércio ilegal. Além da matança, exploram os laços de família do sofisticado sistema social dos elefantes: atiram primeiro no elefante jovem para atrair a mãe aflita, depois a matam e retiram suas presas. O corpo colossal fica lá, estirado em uma poça de sangue.

Mas felizmente existe o outro lado, pessoas lutando para salvar os animais, como as que conseguiram a prótese de uma perna para Motola. Enfim, não é possível pensar na felicidade dos homens se não incluirmos aí o respeito e a admiração pelos animais.



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