13/06/2020 às 09h32min - Atualizada em 13/06/2020 às 09h32min

Recalculando a rota

ALICE GUSSONI
MARCEL GUSSONI / DIVULGAÇÃO
Há alguns anos, começou dentro de mim um impulso muito pouco racional, porém carregado de uma verdade que era só minha. Uma necessidade visceral de encontrar um equilíbrio. Porque as informações que me chegavam do “lado de fora” começaram a soar como se não se encaixassem tão bem em mim. Tinha a sensação que me estavam brotando asas. Sentia enorme sede de sair por aí contemplando o mundo. A vida. O fluxo da natureza. A beleza das coisas feitas com sentido.

Você já se deu de presente uma espécie de retiro pra alma? Ou qualquer momento onde se permitiu desligar o piloto automático e refletir qual verdadeiro caminho você gostaria de seguir? Tem alguns momentos onde algo dentro de nós grita “basta”. Uma espécie de exaustão mental, física, social. Eu sinceramente sinto até mesmo uma certa indigestão tecnológica. Não consigo olhar redes sociais. Celular. Fake news, ou pior, as true news, as notícias da vida real. Tem dias que não consigo nem lidar comigo mesma. A vontade é abrir um zíper imaginário nas minhas costas, sair da minha pele e tirar férias de ser eu.

Respirei fundo, tomei uma enorme dose de coragem, e me mudei para um sítio, a 1800 km da minha zona de conforto, mas perto um Centro de prática Zen budista que frequentava, imersa na floresta, perto de vacas, pássaros, flores, perto dos meus estudos de arte, perto de mim mesma. Queria desfrutar de algo que sempre almejei: a riqueza da simplicidade.

Claro que o resultado dessa experiência foi muito mais amplo e profundo do que eu podia prever. Claro que muitas coisas foram para rumos muito diferentes do que eu imaginava. Muitas delas era uma grande frustração no início, e logo se transformavam em algum profundo aprendizado. Ou uma mudança radical na minha forma de enxergar os acontecimentos. Por exemplo, vivi uma enorme insatisfação em só encontrar escola para meus filhos no período da manhã. Eles costumavam acordar tarde e eu só pensava no quanto precisaríamos mudar toda nossa rotina, e como seria terrível acordar às seis horas da manhã em um inverno tão rigoroso. Mas, ao acordar todo dia às seis da manhã, vi as paisagens mais lindas do mundo no meu quintal. Nasceres do sol laranjas, vermelhos, lilases. Ouvi os mais lindos cantos dos pássaros. Estações chegando e partindo. Então, me dei conta de como é lindo a vida não fazer sempre nossas vontades. Porque, assim, vamos descobrindo vontades que nem sabíamos que tinha. Abrir os olhos, ouvidos, sentidos para a enorme gama de possibilidades que nos propomos todos os dias.   

Essa foi a segunda vez na vida que chutei o balde com tanta força, que fui parar muito longe. Fechando todas as portas e indo viver o extremo oposto. E, se posso resumir em poucas palavras a moral da história, diria que, pra mim, a vida é tão mais linda no caminho do meio. Que as vezes a gente pira mesmo, e tudo bem. Que é importante, de vez em quando, parar tudo pra recalcular a rota. Que a dor de estar fora da zona de conforto é igualmente proporcional ao crescimento pessoal que você terá. Que tudo bem chutar o balde de vez em quando, talvez seja esse o pontapé inicial para um novo e lindo capítulo da sua vida.

No momento em que estamos vivendo, isolados há mais de dois meses, muitas pessoas se viram com suas vidas completamente transformadas. Levamos uma chacoalhada do universo e todas nossas certezas caíram no chão. Mas nossa capacidade de se reinventar, reconstruir nossas estruturas é admirável. Essa enorme crise trouxe também novas formas de se fazer tudo. Trabalho, compras, aulas, encontros. Pudemos perceber o que nos faz realmente falta. Ou quem. Pudemos nos reinventar sem saber muito onde ia dar. E talvez, sem querer, a gente chegue um pouco mais perto daquelas verdades interiores que nem sabíamos que existiam.

Portanto, fé em Deus, e pé na tábua. A receita de hoje é do livro Alimento, movimento e alma, de Lucyane Crosara: empanado de robalo com ceviche de guariroba ao leite de coco e manga.
 
PEIXE
 
INGREDIENTES:
 
- Robalo ou peixe de sua preferência: 2 porções de aproximadamente 200 gramas
- Sal: a gosto
- Pimenta-do-reino: a gosto
- Raspas de limão-siciliano: 1 colher de sobremesa
- Ovo: 1 unidade
- Alho amassado: 1 colher de chá
 
MIX DE EMPANAR
 
INGREDIENTES:
 
- Flocos de milho orgânicos: 2 xícaras de chá
- Flocos de aveia: 1 xícara de chá
- Levedura nutricional: 2 colheres de sopa (opcional)
- Farinha de linhaça dourada: ½ xícara de chá
- Páprica doce ou picante: a gosto
 
MODO DE PREPARO:
 
Tempere o peixe com sal, pimenta, alho e raspas de limão. Quebre o ovo e bata ligeiramente. Bata rapidamente os flocos de milho no processador, para que fiquem menores; misture o restante dos ingredientes para formar o mix de farinhas.
Pré-aqueça o forno a 220°-250° C. Passe o peixe no ovo batido, retire o excesso e passe no mix de farinha, empanando-o bem dos dois lados.
Unte levemente um tabuleiro antiaderente e leve-os ao forno por aproximadamente 15 minutos; se necessário, vire na metade do tempo para dourar do outro lado.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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