11/06/2020 às 10h29min - Atualizada em 11/06/2020 às 10h29min

A prudência

IVONE ASSIS
Os Três Porquinhos é um clássico da Literatura Infantil, conhecido em todo o mundo, por adultos e crianças, há centenas de versões e adaptações, embora a essência seja a mesma. É que, "quem conta um conto aumenta um ponto". Do mesmo modo, há milhares de interpretações. Há quem diga ser etapas da infância; e quem diga ser comportamento dos adolescentes. Há quem prefira analisar como períodos da vida, e quem a veja, simplesmente, uma divertida história de Três Porquinhos, que deram uma lição no Lobo Mau. Não importa a versão/interpretação escolhida, mas, sim, o alcance do propósito.

Era uma vez, três porquinhos cujo pai os mandou ir morar sozinhos, para que aprendessem a trabalhar e a valorizar o próprio suor, com independência e responsabilidade. Os irmãos pegaram a estrada e foram em busca de seus destinos. E logo esqueceram dos conselhos da mãe, para que se mantivessem unidos. A floresta era cheia de lobos, uma casa para proteção era primordial. Na sua liberdade de escolha, cada qual fez o que lhe deu na ideia. O caçula só pensava na diversão. Assim, para andar rápido, a fim de que lhe sobrasse mais tempo para viver a vida, construiu uma casinha de palha. O do meio, um pouco mais cauteloso, construiu uma casa de madeira, um pouco mais confortável, para tocar sua flauta. Já o mais velho, optou por construir uma casa mais sólida, mais segura, que pudesse lhe garantir mais proteção, e bem viver. Fez uma bela casa de tijolos e cimento. Gastou um bom tempo, precisou de perseverança e esforço, agiu com prudência e maturidade, até concluir a casa.

Certa noite, o lobo foi à caça. Num só sopro, derrubou a casa de palha e perseguiu  o porquinho caçula, mais frágil. Este, para salvar sua vida, correu para a casa de madeira do irmão. O lobo faminto derrubou a casa de madeira e saltou sobre os dois porquinhos que, desesperados, pediram abrigo ao irmão mais velho, o qual, prontamente os recebeu. O lobo soprou, vociferou, empurrou, até que cansou. Mas não desistiu. Arquitetou um plano para entrar pela lareira. Os três porquinhos, que estavam em vigília, prepararam-lhe uma armadilha e assim venceram o lobo mau.

Observamos que os três irmãos iniciaram suas histórias de modo individualista, agindo cada um por si, sem diálogo e sem união. Cada qual fez uma casa, em vez de se unirem e fazerem uma só casa. Faltou aos mais novos a humildade para pedir ajuda e para ouvir os conselhos do mais velho, mas também faltou ao mais velho sabedoria e amor, para orientar os mais novos e não desistir deles.

Até que, "na hora da morte", os mais novos, em apuros, baixaram a guarda, e o mais velho, abrindo o coração, os recebeu. Todos ficaram em segurança. Juntos, elaboraram um plano e derrotaram o lobo, deixando a lição de que a união faz a força, a necessidade propicia ideias brilhantes, e a vida deve ser regida pelo amor e a compreensão. Família deve ser sempre um porto seguro, um lugar onde se encontra abrigo forte, durante as piores tempestades.

Os três porquinhos ensinam que a vida é feita de brincadeiras, realizações e propósitos. Mas, em tudo, há que se ter determinação e sabedoria em priorizar em escala emergencial e prudente. Na floresta cheia de lobos, a prioridade era a segurança, para só depois dedicar-se a outros afazeres. Todavia, nada é fácil, e para alcançar os objetivos foi necessária uma dose de sacrifício até que o emergencial fosse concretizado.

Poderíamos entender a história como um processo capitalismo, ou escala de imposição do poder, ou outra causa, mas prefiro ater-me à metáfora de um processo de maturidade e foco. Não há vida sem trabalho, mas é o lazer que torna o esforço agradável. A vida é composta de direitos e obrigações. E, em qualquer estágio, a troca de ideias é essencial. No conto, o diálogo foi implantado entre eles a partir da convivência. Mas o cuidado foi descortinado a partir da necessidade. Às vezes, precisamos nos machucar nos espinhos para perceber as rosas. Isso é a prudência.



O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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