06/06/2020 às 13h07min - Atualizada em 06/06/2020 às 13h07min

O consumismo nunca foi tão cafona!

KELLY BASTOS (DUDI)
Supondo que você não pegue o vírus. Que ótimo! Graças a Deus! Vai ficar de salto alto Louboutin na quarentena? Ah, tenha a santa paciência, né?

A ordem é “Deixe de ser cafona!”  A moda agora é ser minimalista, não produzir lixo, não jogar comida fora, respeitar a natureza, deixar a pele, as unhas e os cabelos respirarem. Pense nisso! Porque pensar também voltou a ser chique!

Um microrganismo colocou por terra, em algumas semanas, uma sequência genética capitalista forjada em anos de lavagem cerebral. Você precisa disso! Não dá para viver sem aquilo! Compre! Compre mais! O livro se conhece pela capa! A veste faz o monge!

Eu mesma – devo reconhecer e confessar –  sou, mais ou menos, consumista. Já fui mais, é verdade.

Para ilustrar  esse texto, e euzinha passar a mensagem, fui atrás de alguém que conheço e que era muiiitoooo consumista. Quer conhecer a história dela? Conta aí, Martha:

“Dudi, houve uma época que comprar era mesmo uma compulsão. Certa vez, saí de casa para trabalhar, num mês de março qualquer, fazia um baita calor logo cedo, então vesti uma calça leve, calcei sandálias e uma blusinha de seda. Na hora do almoço, o tempo virou bruscamente. Então pensei: “Já que vou sair para almoçar, passo no shopping e compro um casaquinho!”

A ideia em si não era ruim nem absurda, posto que realmente estava frio e, naquele dia, eu tinha curso à noite e só voltaria para casa depois das 22h. Acontece que, em vez de comprar um inocente casaquinho, voltei do almoço com três botas novas, dois pares de meia e quatro casacos. Detalhe: em vez de almoçar, engoli dois pães de queijo com um café duplo.

Eu precisava de tudo o que comprei? Claro que não! Comprei porque estava na liquidação? Também não! As vitrines estavam começando a ser abastecidas com a nova coleção de outono/inverno. Usei tudo o que comprei? Pior que não!

Uma das botas que comprei machucava o dedinho. Um dos casacos pinicava e o outro tinha uma gola irritante, que apertava o pescoço. Eu tinha dinheiro sobrando, então? Nããããão! Paguei tudo no cartão de crédito, cuja fatura já beirava à estratosfera.

Por que comprei tanta coisa, então? Porque era economicamente burra! Minha mente funcionava no seguinte modo: eu me ferro tanto nesse trabalho, sofro tanto para ganhar esse salário, que mereço ter tudo o que eu quiser! Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço!
Mereço o quê? Gastar meu dinheirinho suado com pilhas e mais pilhas de coisas inúteis? Encher o mundo de lixo? Abarrotar meus armários e gavetas com roupas, sapatos, bolsas e acessórios e não usar nem a metade? Servir de escrava da engrenagem do mundo neoliberal, que repete sem parar o mantra: compre, compre, compre?

Bem, o fato verdadeiro é que o tal trabalho que me garantia dinheiro para essa esbórnia consumista acabou por me adoecer. Pedi demissão e minha renda caiu pela metade.

Um dia, fazendo faxina nos armários, eu contei 117 pares de sapato! Não, eu não me orgulho disso! Na verdade, eu morro de vergonha. Fiquei com 15 pares, o que ainda é bastante, e doei o restante para ser vendido num bazar assistencial.

A partir daí, comecei a me curar. Adotei a prática de que, para entrar algo novo, tem de sair algo velho. Então, quando vejo que não há nada em minhas posses que eu queira descartar, não compro. Simples assim! Comecei a ser capaz de me perguntar: eu preciso mesmo disso? E, mais importante: aprendi a responder honestamente a essa pergunta. E, finalmente, depois de muita terapia – esse sim é um dinheiro bem gasto, porque não é gasto, é investimento –, aprendi a reconhecer quando o impulso da compra é apenas uma estratégia estúpida para tapar um buraco emocional.

Mas, voltando ao microrganismo que pôs capitalismo e neoliberalismo de joelhos e de mãos dadas, ambos usando máscaras e luvas, evidentemente! Nunca foi tão cafona ser consumista! Porque, pense bem: se alguém pegar o vírus, de que vai adiantar o armário abarrotado de roupas e sapatos de grife? Vai servir para que essa coleção de bases, primers, corretivos, sombras, iluminadores, blushes, batons e gloss (ou será glosses)?

E esse ou esses dependendo do caso, carrões parados aí na garagem, que consomem combustível fóssil e levam do seu bolso uma fortuna de IPVA e seguro? Vai ou vão servir para quê?

Conselho para você: da próxima vez que estiver sendo abduzida pelo site de compra da grife, da make ou de qualquer outra coisa em caixinha, vê se toma juízo e usa esse dinheiro para ajudar quem não tem nada, quem passa fome, quem mora em zonas vulneráveis, onde falta água, luz, esgoto, falta tudo. Compre uma carga de papel higiênico, álcool gel, máscara e doe, né? Não vai muquiar tudo aí na sua casa, certo? Compre uns respiradores e mande entregar em hospitais carentes de tudo.

Deixe de ser cafona! A moda agora é ser minimalista, não produzir lixo, não jogar comida fora, respeitar a natureza, deixar a pele, as unhas e os cabelos respirarem, até porque, caso adoeça, não vai ser esse monte de tralha chique acumulada aí na sua casa que vai salvar você! Pense nisso, porque pensar também voltou a ser chique!
 
Boa semana!



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
Relacionadas »
Comentários »