02/06/2020 às 13h54min - Atualizada em 02/06/2020 às 13h54min

O Cartunista do bairro Operário

CHICO DE ASSIS
Valtenio Spindola viveu seus últimos dias na mesma casa onde nasceu, na rua Jatai, em Uberlândia. Na verdade, depois de trabalhar como Cartunista e Jornalista em diversos jornais de Minas, em Araxá, Uberaba e São Sebastião do Paraíso, cidades onde fixou residência em algum período, já fazia alguns anos que pouco saia dos espaços do bairro. Houve uma época em que nos encontrávamos quase diariamente, e se não o encontrasse em casa bastava ir até a antiga loja de fotos na esquina, ou ao lado onde ele estaria invariavelmente tomando um café e batendo um papo com o Seo Zé sapateiro, ou vez ou outra o encontrava na rua de baixo no boteco e sinuca do Seo Raimundo, um nordestino de quase 90 anos muito forte e bem sarcástico. Domingo era dia de feira, e também de uma cachaça e torresmo no bar da Janice, do lado de baixo da Avenida Monsenhor. Tudo isso em um raio de menos de 500 metros, esse era o universo, infinito e indiferente ao espaço tempo, que tive o prazer de compartilhar com ele.

Depois de ter vencido salão de humor, publicado livro de quadrinhos, tiras e charges em jornais de grande circulação, e como editor ter sido o responsável pela abertura de espaço para vários autores da cidade, e mesmo sendo profissional há tanto tempo participar de fanzines com autores eventuais como eu, Valt seguiu fazendo sua charge diária para um jornal local até que este encerrou suas atividades em 2017. Olhando seu trabalho desse período não posso me deixar de lembrar da frase de Tolstoi: “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”, em seus desenho representava a gente do bairro, sempre haviam senhoras estendendo roupa no varal, baleiros e velhos balcões de madeira de mercearias, não importa qual fosse o assunto tratado, era sempre a partir da voz de um dessas pessoas “simples” “cotidianas”, a impressão é que o trabalho era feito pensando nos conhecidos do quarteirão, e pouco importava a opinião geral.

Valtenio nos deixou há exatamente um ano, no dia 02 de junho de 2019. Foi emocionante ver a enormidade de amigos que apareceram e compareceram para apoiá-lo no momento em que tanto precisou. Ele era uma pessoa querida, com uma história bonita. Contraditório e confuso como todos somos, mas definitivamente um ser de sentimentos nobres. A saudade ainda aperta, e nem é assim tão fácil como parece escrever esse texto. Conversávamos sobre Monty Python, os antigos gibis do Mortadelo e Salaminho da RGE. Sobre a época em que havia no cine Bristol uma sala onde se podia fumar e tomar cerveja assistindo aos filmes, sobre o filme Allegro non Troppo, e sobre outras coisas que talvez nem existam. Mas as conversas não eram sempre sobre o passado, fazíamos planos e projetos mirabolantes para o futuro, um deles era criar em Uberlândia uma Gibiteca, espaço onde se pudesse ao mesmo tempo preservar a produção dos artistas locais e promover atividades e formação para os mais jovens. Divulgando a linguagem dos quadrinhos que tanto nos fascinava. A casa da rua Jatai onde ele nasceu e se despediu é das poucas que ainda mantém a arquitetura original, telhado quatro águas, alpendre, janelas de madeira, merecia ser preservada, restaurada e transformada em “Casa dos Quadrinhos de Uberlândia” ou “Gibiteca Valtenio Spindola”.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 
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