02/06/2020 às 13h52min - Atualizada em 02/06/2020 às 13h52min

Como sair bem de um mau negócio

ANTÔNIO PEREIRA
O jornal humorístico “O Binóculo”, de 9 de abril de 1916, publicou uma historinha pitoresca, não sei se verdadeira. Esse jornalzinho, pouco maior que um livro, tanto brincava com as pessoas inventando coisas absurdas como relatando cinicamente fatos verdadeiros expondo suas mancadas e safadezas. Os nomes são verdadeiros, menos o da personagem central escondido sob um pseudônimo: “Elle”. “O Binóculo” conta que “Elle”, há alguns dias, foi ao Chico Ramella alugar um carro para ir com amigos a um piquenique no Vau. Chico Ramella foi um dos italianos pioneiros no comércio e o carro que alugava era um trole. Uma espécie de charrete meio luxo, para quatro pessoas. O condutor ia na frente num assento mais alto. Dois animais puxavam-na. O preço era trinta mil réis. Quinze no ato e quinze quando o trole fosse buscá-los. “Elle” fez o adiantamento e saiu. Na primeira esquina que dobrou, encontrou-se com um amigo que o convidou para ir ao Vau, de graça, no automóvel do coronel Sidney Machado da Silveira – um dos troncos da conhecida família Machado da Silveira. - Puxa! – pensou – De automóvel e ainda de graça! Mas... e os quinze paus que já dei ao Ramella? Voltou lá.

- Olha, Chico. Sabe de uma coisa? Resolvi não ir mais. Não precisa mandar o carro me pegar.
- Tudo bem. – Respondeu o Ramella.
- An... mas diga-me uma coisa... e... e os quinze mil réis que eu lhe dei...
- Você perde. Já pensou se outra pessoa tivesse vindo alugar o carro, como é que eu faria? Por isso é que você perde. O carro continua à sua disposição.
“Elle” torceu os bigodes, pensou, pensou e concordou.
- É. Você tem razão. Pode preparar o carro e mandá-lo na hora combinada. Só que tem mais uma coisinha. Eu acho o seu carro pequeno.
- Pequeno? O carro maior da praça!
- Pois eu o acho meio pequeno. Vamos vê-lo?
- Perfeitamente.
E foram ver o trole sob a tolda, no quintal. “Elle” começou a medir o carro.
- Aqui vai o Pirahy... (Pirahy era o major José Gonçalves Valim Pirahy, escrivão de Paz, criador da Banda Santa Cecília e Vereador. Era um homem deste tamanho – tanto tinha altura como tinha largura!). Aqui, o Gambardella... (Gambardella era outro italiano, proprietário da Casa Gambardella, no centro, enorme; um cara redondo). Aqui, o Chico Sapo... (Chico Sapo era o Francisco Emílio de Araújo, ex-Venerável da Loja Maçônica Luz e Caridade, titular do Cartório do 1o. Ofício, até hoje pertencente à família. Só de bigodes tinha quase meio quilo!)
- É, de fato, cabemos.
Mal acabara de falar, já o Ramella retorquiu furioso:
- Que negócio é esse de Gambardella, Pirahy e Chico Sapo? Você está louco?
- São os meus amigos que vão comigo ao piquenique.
- E o senhor acha que os meus cavalos puxam eles até lá?
- Uai, pra isso é que eu estou lhe pagando trinta mil réis.
- Nem que o senhor pagasse cem! Só Pirahy pesa mais de cento e vinte quilos
E já foi tirando os quinze mil réis do bolso.
- Aqui estão seus quinze mil réis. Meu carro me custou muito!
 “Elle” pegou o dinheiro e sumiu.
O Ramella, ainda indignado, mas achando que era melhor assim, balançou a cabeça:
- Ora, aqui me aparece cada um...

Fonte: adaptação de uma nota do jornal “O Binóculo”


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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